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Empreendedorismo cresce entre idosos e já reúne 4,5 milhões de negócios no país

23 de março, 2026

Empreendedorismo cresce entre idosos e já reúne 4,5 milhões de negócios no país

Total de empreendimentos em 2025 é 58,6% superior ao de 2012. Complementar a renda é principal objetivo

Por Bruna Lessa
— Brasília

(Foto: Freepik)

Quando se aposentou, aos 62 anos, Lúcia Pimentel não programou viagens nem descanso. A costureira, que hoje tem 71 anos, precisou se adequar a uma aposentadoria que lhe fornecia apenas o salário mínimo, de R$ 937 na época. Com esse dinheiro, as contas não fechavam e ela precisou seguir trabalhando como costureira para conseguir complementar a renda. Entre ajustes e consertos de roupa, Lúcia garante o dinheiro para pagar suas despesas básicas e manter cuidados médicos.

— Se eu não trabalhar, faltam coisas necessários para a minha sobrevivência. Graças a Deus, trabalho. Consigo cuidar da minha saúde — conta ela.

A decisão de Lúcia ajuda a explicar um movimento que cresce pelo país: o avanço do empreendedorismo entre pessoas com mais de 60 anos. Em 2025, o Brasil chegou a 4,5 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais, número 58,6% maior que o registrado em 2012, segundo dados do Sebrae.

Empreender não foi um projeto de vida pensado para dar continuidade a um sonho, mas uma saída diante da realidade financeira, conta Lúcia. Como ela, muitos passaram a fazer costura, dar aulas particulares e fazer pequenos serviços como fonte complementar de renda após a aposentadoria.

Norte lidera

Os números mostram que a situação é comum em todo o país. Em 2025, as maiores participações de empreendedorismo entre a população sênior em idade ativa eram encontradas nas regiões Norte (15,5%) e Centro-Oeste (14,3%), seguidas por Sul (12,6%), Sudeste (12,3%) e Nordeste (11,6%). Entre os estados, os maiores percentuais foram observados em Mato Grosso (17,5%), Pará (17,2%) e Tocantins (15,8%).

O perfil desses empreendedores é desigual. Dos 4,5 milhões de donos de negócios seniores, 70% são homens e 30%, mulheres. Em termos de escolaridade, 39,6% têm ensino fundamental incompleto, 22%, médio completo e 20,2%, superior incompleto ou mais.

Para especialistas, esses números revelam uma adaptação econômica à insuficiência dos benefícios previdenciários. Mas há outros fatores a manter a população de 60 anos ou mais no mercado de trabalho.

— Na maioria dos casos, a motivação é financeira: a aposentadoria já não acompanha o custo de vida nem sustenta o padrão mínimo de segurança emocional que o trabalho oferece— afirma Denise Milk, psicóloga especialista em RH e saúde mental corporativa.

Segundo ela, o trabalho também cumpre uma função psíquica central, como organizar o tempo, preservar a identidade, sustentar a autoestima e manter o sentimento de utilidade social:

— Quando o trabalho desaparece de forma abrupta, muitos vivenciam um vazio simbólico que se traduz em adoecimento emocional. Empreender ou voltar a atuar passa a ser também uma estratégia de saúde mental.

De acordo com dados do Sebrae, a maioria trabalha por conta própria (85%), enquanto 14,9% são empregadores. Entre os que têm funcionários, 71,2% empregam de um a cinco trabalhadores. O setor de serviços concentra 35,4% desses negócios, seguido por comércio (22,2%), agropecuária (18,1%), indústria (12,4%) e construção (11,8%).

Para parte dos idosos que continuam trabalhando, a formalização como microempreendedor também funciona como estratégia para manter o acesso a um plano de saúde. Com a renda da aposentadoria muitas vezes insuficiente para arcar com consultas particulares e mensalidades elevadas dos planos de saúde, o CNPJ permite a contratação de planos empresariais, que custam menos do que os individuais.

Na prática, o negócio próprio passa a cumprir um papel que vai além da geração de renda e se torna um meio de viabilizar cuidados médicos regulares, em uma fase da vida em que os gastos com saúde crescem.

Segundo Rafic Júnior, especialista em empreendedorismo e gestor de carreiras, o CNPJ pode ser um caminho para que pessoas acima dos 60 consigam condições mais acessíveis:

— O CNPJ é uma saída prática para conseguir um plano mais acessível e continuar com atendimento médico de qualidade. Não é luxo, é necessidade. A pessoa abre o MEI (microempreendedor individual) para viabilizar o plano de saúde, emitir nota quando aparece uma oportunidade ou manter portas abertas no mercado, mesmo sem faturamento constante.

Ele afirma que o crescimento do empreendedorismo acima dos 60 anos é impulsionado por dois motores simultâneos:

— A renda complementar é real, porque a aposentadoria já não sustenta o padrão de vida, mas há também uma busca por propósito. Essa geração não quer parar, quer continuar relevante, produtiva e útil.

Ele afirma que os idosos se concentram em setores onde experiência, relacionamento e reputação pesam mais do que conhecimento tecnológico, como serviços, comércio, saúde, educação e consultoria. Os obstáculos para formalização, porém, são significativos.

— A burocracia assusta, o acesso a crédito é limitado, e a adaptação às ferramentas digitais ainda é uma barreira. Quando há orientação clara, a formalização acontece — diz Rafic.

Inclusão digital

Camila Pellegrino, especialista em Direito Previdenciário, lembra que a maioria dos benefícios pagos pela Previdência (de 70% a 80%) está em torno de um salário mínimo:

— A aposentadoria deixou de ser mecanismo de manutenção de renda e passou a ser, para muitos, um piso insuficiente. O MEI surge como instrumento de sobrevivência econômica.

Erika Palma, especialista em Previdência Complementar, aponta concentração em atividades de baixa barreira de entrada, como serviços administrativos, aulas particulares, serviços técnicos e atividades manuais.

A formalização enfrenta desafios específicos para esse público: desconhecimento das regras, confusão entre MEI e trabalho informal, dificuldade com plataformas digitais, medo de perder benefícios e pouco acesso a crédito.

— Há impactos positivos, como redução do desemprego e aumento da arrecadação, mas há um custo social: a precarização do trabalho na velhice— diz Erika. — Normaliza-se trabalhar na velhice.

Para os especialistas, políticas de inclusão digital, educação empreendedora, combate ao preconceito etário e modelos flexíveis de trabalho serão decisivos nos próximos anos.

O envelhecimento da população torna o fenômeno estrutural. Os dados mostram que a presença de pessoas mais velhas no mercado de trabalho tende a crescer, enquanto o MEI permanece como principal porta de entrada para a formalização simplificada.

— O que estamos vendo não é apenas uma resposta à insuficiência da aposentadoria. É uma redefinição do lugar do trabalho ao longo da vida —resume Denise Milk.

https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/22/empreendedorismo-cresce-entre-idosos-e-ja-reune-45-milhoes-de-negocios-no-pais.ghtml

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