PORTFÓLIO

Empresas reveem estratégia para alocação em startups, encerrando CVCs
Braskem, Gerdau, Casas Bahia e Banco BV estão entre empresas que reavaliaram estratégia
Por Silvia Rosa — São Paulo
Imagem: Freepik
Após uma fase de empolgação e liquidez, as empresas brasileiras estão começando a rever suas estratégias de investimento em inovação e startups por meio de fundos próprios, os chamados CVCs. Companhias como a Braskem, Gerdau, Casas Bahia, Americanas e Banco BV decidiram encerrar seus programas, com venda de carteiras ou transferência de gestão, e outros empresas têm preferido fundos com mais cotistas.
Entre 2021 e 2022, auge do modelo, 40 novos fundos de corporate venture capital foram lançados no país. Mas, segundo levantamento da Abvcap, o número de empresas com fundos de CVC no Brasil passou de 84 em julho de 2023 para 65 em julho de 2026.
A explicação passa por juros mais altos, dificultando a saída dos investimentos e colocando pressão no negócio principal das companhias patrocinadoras, que se voltam para o que ajuda no caixa. Há também companhias que avaliaram que, por meio de gestores terceirizados, conseguem maior acesso a transações estratégicas, quando os empreendedores preferem ter investidores financeiros na base.
“O que houve foi um amadurecimento dessa indústria. Algumas companhias montaram os CVCs como unidades de negócios separadas, que tem centro de custo, mas, como os investimentos são de longo prazo, não geram receita ainda e agora ela estão revendo suas estratégias”, avalia Priscila Rodrigues, presidente da Abvcap.
A Braskem, que anunciou em janeiro do ano passado a descontinuação dos investimentos na Oxygea, alocou apenas US$ 10 milhões dos US$ 150 milhões que tinha separado para investir em sua criação, em 2022. A empresa tem conversado com gestores para a venda de empresas na carteira, apurou o Pipeline. Entre os principais investimentos feitos pelo fundo está a startup americana de reciclagem de plásticos Cicrlular.co.
A Casas Bahia e a Americanas também estão entre empresas que passaram por reestruturação financeira ampla nos últimos anos e precisaram rever suas prioridades. A Casas Bahia ainda mantém o acompanhamento das participações minoritárias nas investidas.
No caso da Basf, o ajuste foi inicialmente de estrutura. O portfólio no Brasil e demais países da América do Sul, que tinha gestão local, passaram a ser geridos da Alemanha e a companhia ainda não definiu se vai vender as carteiras. Já a Gerdau parou de investir via seu fundo de CVC Gerdau Next Venture e colocou à venda no mercado secundário suas posições em startups, segundo fontes. O veículo, criado em 2019, tinha US$ 80 milhões disponíveis para investimentos, mas alocou menos da metade do valor.
Para Peter Seiffert, CEO da Valetec Capital, que gere fundos de CVC, hoje os investimentos em startups por empresas estão mais racionais, com as lideranças corporativas exigindo métricas e objetivos bem definidos, e uma conexão direta entre inovação e estratégia de negócio. “Se os anos anteriores foram marcados por uma euforia desmedida e um excesso de liquidez que inflou valuations, o cenário que se desenha para o período entre 2026 e 2028 exige pragmatismo, disciplina financeira e convicção estratégica”, diz ele.
Algumas companhias decidiram ter braços separados de CVC, deixando de tocar o fundo próprio para nvestir em portfólios multicorporativos, junto com outras companhias, ou mesmo sendo cotista direto em fundos de VC, como tem feito a SulAmérica, afirma Richard Zeiger, sócio da MSW Capital. Dependendo do tamanho da posição no fundo, uma empresa pode ter direito de preferência em processos de saída de outros cotistas, se o negócio a interessar.
Os investimentos dos fundos de CVC, contudo, continuam sendo relevantes nas rodadas de startups. No mundo, uma em cada cinco rodadas de investimento em startups conta com a participação de um investidor corporativo. No Brasil, os fundos de CVC participaram de 44 transações em 2025, que somaram R$ 1,9 bilhão, contra 81 em 2024, que totalizaram R$ 3,8 bilhões, segundo dados da Abvcap em parceria com a EloGroup.
No primeiro trimestre deste ano, foram registradas quatro transações que contaram com fundo de CVC. Apesar da revisão geral, há entrantes: Petrobras e Boticário entraram no segmento nos últimos dois anos. Para o gestora da Valetec, a participação desse capital corporativo na inovação tende a se intensificar principalmente em teses de IA. A firma soma R$ 1,3 bilhão em gestão de fundos de CVC de nove empresas, como Arcelor, Ânima, Eurofarma e Vibra.
Investimentos ligados à agenda climática, como transição energética, eletrificação, bioinsumos também têm ganhado relevância nos investimentos corporativos, afirma Renato Ramalho, CEO da KPTL. A gestora faz a gestão de fundos de corporate venture capital de terceiros, como o BRB.
“O momento é favorável para investimentos porque houve uma correção dos valuations e permite trabalhar com perspectivas mais realistas”, considera Eduardo Sperling, gestor da Ahead Ventures. Procurados, Banco BV, Gerdau e Braskem não comentaram.





