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CSCs e a terceira onda com IA: tecnologia (sozinha) não entrega valor

19 de junho, 2026

Por André Franco e Ricardo Avila

Os Centros de Serviços Compartilhados (CSCs) brasileiros vivem um paradoxo. Eles reúnem tudo o que a inteligência artificial precisa para gerar valor:  alto volume transacional, processos repetitivos, dados estruturados, documentos padronizados. Por isso, são as áreas mais pressionadas a entregar a transformação. Ao mesmo tempo, são as que mais expõem o abismo entre o investimento em tecnologia e a real prontidão das organizações para extrair resultado dela.

Esse é o desconforto da terceira onda dos CSCs. A primeira nasceu da centralização, voltada à redução de custos. A segunda trouxe a automação, que somou inteligência aos processos e começou a apoiar decisões. A onda atual tem uma natureza diferente, visto que ela não se resolve com a adoção de mais uma tecnologia. Exige reposicionar o CSC como um hub estratégico, capaz de orquestrar IA, agentes e plataformas integradas no centro do modelo operacional da companhia.

O desafio é que poucas empresas chegam a essa onda com as fundações prontas. Pesquisas globais recentes mostram que, mesmo entre as organizações mais maduras, as principais barreiras para escalar IA passam longe da tecnologia. Os obstáculos reais estão em talento, na escolha dos casos de uso certos, em governança, no patrocínio executivo e na mudança cultural. No Brasil, o quadro se intensifica. Os CSCs convivem com bases de dados fragmentadas, instruções de trabalho desatualizadas, catálogos de serviço incompletos e modelos operacionais desenhados para uma lógica funcional, longe do end-to-end.

O resultado é familiar para quem ocupa essas cadeiras. Lideranças são cobradas diariamente por uma resposta de IA que a estrutura ainda não comporta. Em vez de liderar a transformação, muitas organizações estão sendo lideradas pela ansiedade de avançar, e acabam acumulando provas de conceito desconectadas da estratégia.

De centro de eficiência a plataforma de inteligência

A evolução do CSC para uma lógica de Global Business Services (GBS) ajuda a explicar o salto necessário. O termo “global” aqui não é só geográfico: é uma mentalidade de visão integrada, em que processos end-to-end, hiperautomação, IA e melhoria contínua se combinam para transformar o negócio, não apenas reduzir seu custo ano a ano. O CSC deixa de ser bastidor da operação para ocupar um papel de contribuidor relevante e como plataforma de inteligência corporativa.

Esse reposicionamento exige uma mudança de mandato. Quando uma empresa redesenha seu ERP, repensa sua arquitetura de automações e adota IA ao mesmo tempo, a discussão sobre quem conduz a transformação volta à mesa. Tecnologia, negócio e CSC precisam reescrever juntos quem decide, quem entrega e quem governa. Tratar IA como projeto isolado de uma diretoria é a forma mais rápida de produzir custo sem valor.

O risco de colocar IA em cima do processo errado

Há uma armadilha comum nessa transição: aplicar IA sobre o processo existente. O efeito é fazer a mesma coisa um pouco mais rápido, sem mudar o jogo. Ganhos marginais escondem o custo de oportunidade real.

Capturar valor com IA exige repensar o processo a partir das novas capacidades disponíveis. Além de redesenhar atividades para que o colaborador atue como supervisor e orquestrador, e não mais como executor da tarefa repetitiva. Como também significa aceitar que a IA não serve apenas para responder o que já sabemos perguntar: seu potencial maior está em revelar caminhos e analisar múltiplas dimensões que a capacidade humana, sozinha, muitas vezes não alcançaria.

Os fundamentos que ninguém quer revisitar

A pergunta mais incômoda para qualquer líder de CSC hoje não é sobre qual modelo de IA adotar, mas sobre o estado das suas fundações, visto que há processos e instrução de trabalho escrita e atualizada. Há catálogo de serviços digitalizável? Há base de dados única, íntegra e governada? Há clareza de processo antes de automatizá-lo?

Sem esses fundamentos, qualquer ferramenta entrega menos do que promete. Sabemos que, mesmo as soluções simples se tornam alavancas de produtividade relevantes. Nas organizações que trataram esses elementos como prioridade, e não como pré-requisito a ser pulado, vimos que a IA passa a se autofinanciar e os ganhos de eficiência passam a liberar a capacidade para iniciativas mais transformacionais.

O que separa quem captura valor

Em nossa experiência, notamos que os CSCs que capturam valor com IA não são os que escolheram o melhor modelo ou o fornecedor mais sofisticado, mas sim, os que tratam a transformação como uma jornada combinada de pessoas capacitadas, problemas de negócio relevantes, fundações sólidas e patrocínio executivo visível. É nesse ponto que programas estruturados de AI Literacy (letramento em IA) e democratização deixam de ser treinamento corporativo e passam a ser infraestrutura: criam a fluência necessária para que o colaborador opere como orquestrador, reconheça os limites da tecnologia e identifique onde, de fato, vale aplicá-la.

A próxima geração de CSCs será reconhecida menos pelos indicadores de custo por transação e mais pela capacidade de orquestrar inteligência no ritmo do negócio. Para chegar lá, não basta investir em tecnologia: é preciso reconstruir, com a mesma ambição, o que vem antes dela.

André Franco e Ricardo Avila, sócios da EloGroup.

https://tiinside.com.br/18/06/2026/cscs-e-a-terceira-onda-com-ia-tecnologia-sozinha-nao-entrega-valor/

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