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Brasil registra recorde de mais de 800 mil acidentes de trabalho em 2025
Dados do MTE mostram aumento de casos e mortes na última década, com destaque para saúde e transporte rodoviário
Por Pedro José*
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O Brasil registrou, em 2025, o maior número de acidentes de trabalho da série histórica, com 806.011 ocorrências e 3.644 mortes, segundo um estudo técnico divulgado nesta terça-feira (28/4) pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Na comparação com 2020, período marcado por retração nas atividades devido à pandemia, o total de acidentes cresceu 65,8%, enquanto os óbitos aumentaram 60,8%.
Ao longo da última década, entre 2016 e 2025, foram contabilizados 6,4 milhões de acidentes e 27.486 mortes no país. Apesar da elevação nos números absolutos, a taxa de incidência recuou de 29,39 para 17,94 casos por 100 mil trabalhadores, movimento associado ao aumento do emprego formal, segundo o MTE.
No período, os acidentes resultaram na perda de mais de 106 milhões de dias de trabalho. Também foram registrados quase 249 milhões de dias debitados, indicador que considera os efeitos permanentes de lesões graves e mortes sobre a capacidade laboral.
O setor de saúde lidera em volume de ocorrências, com cerca de 633 mil registros na década, especialmente em ambientes hospitalares e de pronto atendimento. Entre as ocupações, técnicos de enfermagem concentram o maior número de acidentes.
Em relação à letalidade, o transporte rodoviário de cargas apresenta os índices mais elevados. A ocupação de motorista de caminhão somou 4.249 mortes no período analisado, o que corresponde a uma média superior a um óbito por dia.
Regionalmente, o estado de São Paulo concentra mais de um terço do total de acidentes e mortes registrados no país. Já as maiores taxas de letalidade são observadas em Mato Grosso, Tocantins e Maranhão. O Mato Grosso uma maior incidência e gravidade, com influência de atividades ligadas ao agronegócio, à construção civil e ao transporte.
Acidentes típicos seguem como a maioria, com 64,6% dos casos, mas os acidentes de trajeto cresceram e já representam 19,3% do total. A participação feminina aumentou 48% ao longo da década, atingindo 34,2% dos registros, movimento relacionado à presença crescente de mulheres nos setores de saúde e serviços.
Para a advogada Fernanda Garcez, sócia da Abe Advogados, especialista e mestre em direito trabalhista. o cenário reforça a necessidade de ampliar medidas preventivas dentro das empresas. “O ponto mais relevante é chamar a atenção das empresas para a necessidade dos procedimentos preventivos para evitar a ocorrência de acidentes de trabalho”, afirma. Segundo ela, o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), previsto nas normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho, é uma das principais ferramentas para identificar, avaliar e controlar riscos ocupacionais.
Garcez destaca que a aplicação do programa exige análise detalhada das condições de trabalho. “Em uma indústria, por exemplo, é necessário avaliar as máquinas e se debruçar sobre esse plano de gerenciamento de riscos para entender as medidas que efetivamente precisam ser implementadas para a redução desses índices”, diz.
A especialista também aponta mudanças regulatórias em andamento, com ampliação do escopo de avaliação. “A própria NR-1 está sofrendo modificações em que o PGR vai exigir a avaliação dos riscos psicossociais”, afirma.
Na avaliação do professor de Direito do Trabalho da FGV Direito Rio, Paulo Renato Fernandes da Silva, , sócio do escritório Fernandes e Silva Advogados Associados, o volume de acidentes registrado no país está associado a fatores estruturais relacionados à prevenção e ao cumprimento da legislação. “Nós somos um dos campeões mundiais de acidentes de trabalho. Isso decorre da falta de cultura jurídica, de cultura social, de prevenção, de descaso com a legislação de proteção, da falta de controles e da falta de atuação dos organismos de controle e dos sindicatos”, afirma.
Segundo ele, o crescimento recente dos casos reforça a tendência de alta observada nos últimos anos. “Antigamente tínhamos cerca de 670 mil a 750 mil casos, e agora já passa de 800 mil”, diz.
O professor também aponta que fatores como assédio moral, sexual e religioso passaram a ser mais reportados e podem influenciar os dados. Além disso, destaca a existência de subnotificação. “As empresas muitas vezes não gostam de emitir a CAT, que é obrigatória toda vez que acontece um acidente de trabalho”, explicou.
“A legislação existe e é extensa. A responsabilidade pelo cumprimento das normas para garantir um meio ambiente de trabalho adequado, seguro e sadio é da empresa, mas também é dever do trabalhador observar essas normas”, disse.
*Estagiário sob a supervisão de Rafaela Gonçalves





