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Liquidante do Master está registrada em prédio ocupado por movimento social

25 de fevereiro, 2026

Victoria Bechara
Do UOL, em São Paulo

Imagem: Victoria Bechara/UOL

Dias após ser anunciada como liquidante do Banco Master, a empresa em questão alterou seu endereço para um edifício no centro de São Paulo. No entanto, o prédio está ocupado por um movimento social por moradia desde 2024. O Banco Central anunciou hoje a substituição temporária da liquidante por motivos de saúde.

O que aconteceu

A responsável pela liquidação do Master é a EFB Regimes Especiais de Empresas. O endereço que aparece no CNPJ e em documentos da Junta Comercial de São Paulo é de um edifício histórico no Largo da Misericórdia, no centro de São Paulo, mas a empresa não opera no local. O imóvel está ocupado desde fevereiro de 2024 por famílias do MMCR (Movimento de Moradia Central e Regional).

A sede foi alterada dias após a liquidação do Master. Até então, a EFB estava registrada em um apartamento no bairro de Higienópolis, também na região central da capital paulista. Em 25 de novembro, a empresa registrou a alteração de endereço na Junta Comercial.

A reportagem esteve no local ontem. Na frente do edifício, há uma faixa contra a reintegração de posse (leia mais abaixo). “Esse imóvel estava abandonado. As famílias que moram aqui estão respaldadas pela Constituição. Em um conflito de direitos, prevalece o direito das pessoas.”

A EFB foi nomeada como liquidante pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, em meio às investigações que envolvem o Master. A empresa é chefiada por Eduardo Félix Bianchini, ex-servidor do BC. Ele fica responsável pela administração do Master e de outras empresas do grupo durante o processo de liquidação, como o Banco Letsbank, a Master Corretora de Câmbio e o Will Bank.

Ontem, o BC anunciou um novo liquidante temporário. O comunicado publicado no Diário Oficial da União informa que a troca foi motivada por problemas de saúde de Bianchini. A EFB ficará afastada até 6 de março, segundo o Banco Central.

O UOL entrou em contato com a EFB e com Eduardo Felix Bianchini por email, mas não obteve resposta. O número de telefone indicado no CNPJ da empresa também não atendeu às ligações. O espaço segue aberto.

Servidor do BC por 39 anos, Bianchini já atuou em outras liquidações de empresas. Ele comandou a intervenção em oito instituições, incluindo o Banco BVA, o grupo Cruzeiro do Sul, a Pioneer Corretora de Câmbio e Decasa Financeira.

Edifício Ouro para o Bem de São Paulo

À época da ocupação, o imóvel pertencia à Santa Casa de Misericórdia. Batizado de “Edifício Ouro para o Bem de São Paulo”, foi inaugurado em 1939, em homenagem à Revolução Constitucionalista de 1932.

As salas eram alugadas para escritórios. Com a degradação do centro, o prédio acabou esvaziado, até ser ocupado por famílias em fevereiro de 2024. O edifício Ouro foi colocado à venda em outubro daquele ano, junto com outros seis imóveis, para ajudar a quitar dívidas da Santa Casa. A instituição ingressou com ação de reintegração de posse na Justiça, mas as famílias seguem no local.

O UOL apurou que houve uma tentativa de notificação extrajudicial no Edifício Ouro. Uma empresa que utilizava os serviços de câmbio do Banco Master tentou acionar a liquidante no endereço no início de fevereiro, mas não conseguiu. O cartório informou que não localizou Bianchini no prédio “pois o edifício comercial está ocupado por membros do movimento Na Luta por Moradia”.

Procurado, o BC informou que Bianchini opera na sede do Master, na Vila Olímpia. Portanto, notificações judiciais ou extrajudiciais deveriam ser encaminhadas para lá. “A Lei 6.024, de 1974, que dispõe sobre o regime de liquidação extrajudicial, não regulamenta endereço pessoal ou profissional de liquidante. Seus atos na gestão da instituição (inclusive receber notificações) são praticados na sede da entidade liquidanda”, disse o Banco Central, em nota.

No entanto, mesmo que o liquidante atue na sede do Master, a empresa precisa manter um endereço válido para fins fiscais e de correspondência. Segundo advogados consultados pelo UOL, nada impede que uma empresa tenha seu CNPJ registrado em um endereço usado somente para fins fiscais, como a própria residência do dono, por exemplo. No entanto, o fato de a sede da EFB estar registrada em um prédio ocupado não é comum.

“A responsabilidade pela indicação da empresa é do Banco Central”, diz o advogado Angelo Paschoini, especialista em direito tributário e financeiro“Quando o Banco Central nomeia um liquidante de uma instituição financeira, toda a responsabilidade é do BC, as empresas são homologadas para isso”, completa.

https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/02/25/liquidante-master-ocupacao.htm

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