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Pedidos de recuperação judicial aumentam

22 de abril, 2026

Pedidos de recuperação judicial aumentam

Instrumento vem sendo encarado como ferramenta de gestão, mas é preciso levar em conta o risco de imagem e reputação

Por Carlos Vasconcellos — Para o Valor do Rio

O número de recuperações judiciais no Brasil em 2025 cresceu 5,5% em relação ao ano anterior. Segundo a Serasa Experian, esse é o maior volume de processos desde 2016. Ao todo, foram 977 processos envolvendo 2.466 CNPJs, uma alta de 13%. Os setores de agropecuária e serviços responderam, respectivamente, por 30,1% e 30% dos CNPJs envolvidos, seguidos por comércio (21,7%) e indústria (18,2%).

De acordo com a Serasa, a distribuição dos pedidos reflete desafios distintos de cada setor e fatores como custo de crédito, dinâmica de demanda e estrutura de endividamento das companhias. Parte da alta no número de pedidos vem de empresas de médio porte.

Ezekiel Wilbert, CEO da Safegold, especializada em reestruturação empresarial, observa que esse crescimento é resultado de um ciclo de estresse financeiro que não começou ontem. “Depois da pandemia, houve um ciclo de crédito barato, com juros mais baixos e muita liquidez”, diz. “Agora, com os juros em alta e o crédito mais apertado, o caixa das empresas ficou desalinhado, especialmente no ‘middle market’.”

Com menos musculatura para enfrentar a crise de caixa, as médias empresas acabam recorrendo à proteção da recuperação judicial para evitar a insolvência e tentar se reestruturar. Wilbert observa que a alternativa tem sido adotada como estratégia financeira. “Ela vem sendo encarada, cada vez mais, como uma ferramenta de gestão, um recurso para recuperar o fôlego no caixa, enquanto a empresa se reestrutura”, afirma.

Para Natasha Giffoni, sócia do escritório Volk & Giffoni Ferreira Advogados, especialista em recuperações judiciais e extrajudiciais, isso tem levado mais empresas a buscarem a Justiça antes de atingirem uma situação de insolvência. “A recuperação judicial pode ser um respiro financeiro, um mecanismo acessível e que tem sido efetivo para que as empresas renegociem suas dívidas e ganhem fôlego para se recuperar e manter suas operações”, diz.

A advogada vê mais disposição de credores, especialmente dos bancos, para negociação. “Hoje há um entendimento melhor do mercado sobre o funcionamento da recuperação judicial.” Mas observa que antes de buscarem essa via, as empresas devem avaliar bem o cenário, o tamanho das dívidas e a capacidade de diálogo com os credores. Além disso, precisam estar atentas ao “timing” do pedido.

“Quanto mais rápido a empresa toma a decisão, mais chances ela tem de sair da recuperação judicial”, afirma Haroldo Monteiro, professor do curso de finanças para advogados do Alumni Coppead. Isso significa agir antes que a situação financeira se torne insustentável. “Já vi empresas esperarem demais e quando pediram a recuperação, já não havia mais tempo”. Ele acredita que o fator tempo é ainda mais importante para as médias empresas. “As grandes têm mais poder de fogo para negociar com bancos e credores do que as empresas de menor porte.”

Monteiro ressalta, no entanto, que a recuperação judicial deve vir acompanhada de uma mudança real de estratégias e atitudes na empresa. “A reestruturação precisa ser para valer, ou então a empresa vai apenas tratar do sintoma da crise, que é o endividamento, em vez de mudar os parâmetros que levaram à crise”, alerta. “E sair de um pedido de recuperação para dar entrada em outro, algum tempo depois, fica cada vez mais caro”.

Já Ilan Swartzman, da Swartzman Advogados Associados, destaca que a decisão de solicitar a recuperação pela via judicial deve levar em conta o risco de imagem e reputação para a empresa. Segundo ele, embora o preconceito do mercado contra essa ferramenta tenha diminuído, ele ainda persiste. “Muitas vezes, o pedido de recuperação é visto no mercado como um risco por fornecedores ou clientes, e isso pode criar um problema de caixa ainda pior ”, diz.

https://valor.globo.com/empresas/media-e-mais/noticia/2026/04/22/pedidos-de-recuperacao-judicial-aumentam.ghtml

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