PORTFÓLIO

OPINIÃO: Por que confiamos na eletricidade?
Por Luis Fernando Prado*
Foto: Freepik
Nas últimas semanas, o debate sobre os rumos da inteligência artificial (IA) mudou de tom. Um pesquisador deixou a Anthropic acusando os grandes laboratórios de apostar com nossas vidas. Dando um ponto de vista pessoal seu, um dos cientistas da mesma empresa estimou em mais de 10% a chance de a tecnologia acabar com a humanidade nos próximos dez anos. Em 12 de setembro, o CEO da empresa pediu que o setor desacelerasse e, em horas, foi endossado por alguns de seus maiores rivais. Nos Estados Unidos, parlamentares anunciaram uma proposta para proibir a superinteligência. É razoável que o leitor esteja assustado. Eu proponho outra coisa: que ele se lembre de 1889.
Em 11 de outubro daquele ano, na hora do almoço, um técnico chamado John Feeks subiu num poste em Manhattan para trabalhar em linhas de telégrafo. Um fio de alta tensão havia entrado em contato com uma dessas linhas alguns quarteirões adiante. Ele morreu eletrocutado, pendurado numa teia de fios, diante de milhares de pessoas. Nas semanas seguintes, as autoridades determinaram o desligamento de circuitos e a retirada de fios perigosos, e a revista Judge estampou na capa a eletricidade como um demônio em forma de aranha capturando vítimas. Era o chamado “pânico dos fios”. A tecnologia mais promissora do século era também a mais temida — as duas coisas ao mesmo tempo.
Quem ajudou a enfrentar o pânico? Em 1893, Chicago quis iluminar com eletricidade sua Exposição Mundial, e as seguradoras precisavam avaliar aquele risco. Enviaram então o jovem engenheiro William Henry Merrill para inspecionar as instalações. A feira recebeu 27 milhões de visitantes sem qualquer incêndio elétrico relevante. No ano seguinte, Merrill abriu um laboratório em uma sala em cima de um posto de combate a incêndios, para testar a segurança de dispositivos elétricos. Dali surgiria um sistema de certificação baseado em testes. O lema: saber por teste e declarar os fatos.
Em 1897, seguradoras, engenheiros, arquitetos e outras entidades publicaram o primeiro Código Elétrico Nacional dos Estados Unidos. Esse código privado, que segue sendo revisado periodicamente, passou a ser incorporado à legislação e, até hoje, estados e municípios americanos o adotam por referência.
Voltando a 2026, três em cada quatro grandes empresas do recorte brasileiro da pesquisa da Sinch afirmam operar agentes de IA na comunicação com clientes, acima da média global do levantamento. Em outro estudo, da Deloitte, apenas uma em cada quatro organizações brasileiras ouvidas afirma ter governança madura para esse tipo de IA. Na pesquisa da Sinch, oito em cada dez respondentes brasileiros relataram ter que interromper ou reverter uma implementação por problemas de governança e, em cerca de quatro de cada dez desses casos, o motivo foi vazamento de dados ou informações pessoais.
Em que pese a intensa adoção de IA, em muitos contextos do ambiente corporativo ainda se vê a governança como aquilo que se exige para dizer não. Não é. Governança é o que se aplica para poder dizer sim. O trabalho de Merrill ajudou a tornar a segurança elétrica verificável; verificável, o risco podia ser mais bem avaliado; mais bem avaliado, tornava-se mais fácil segurar, financiar e disseminar a tecnologia. Ao longo das décadas, aquilo que inspirava pânico passou a ser algo em que pouco se pensa ao acender a luz.
De maneira simplificada, governar IA é responder, antes de ligar as máquinas e ao longo de seu uso, a cinco perguntas centrais: Onde estão os fios — onde e como a tecnologia é usada? O manual do fabricante foi observado? Alguém testou? Quem vai acompanhar o funcionamento e responder por ele? Se for preciso, é possível acionar o disjuntor? É uma lógica de verificação semelhante à que Merrill ajudou a consolidar. A diferença é que hoje o aparelho pode falar, decidir e agir em nome da empresa.
A confiança da sociedade não é consequência automática de a tecnologia funcionar, mas precisa ser construída ativamente por quem a coloca no mercado e em operação. Nas décadas seguintes ao pânico de 1889, essa confiança foi sendo construída por pessoas e instituições que assumiram a responsabilidade de governar a então nova tecnologia e apontar os fatos, inclusive os inconvenientes.
Por que confiamos na eletricidade? Não é porque ela deixou de ser perigosa — afinal, continua capaz de matar —, mas porque, entre a usina de geração e a nossa mão, existe uma cadeia de atores com papéis importantes na governança. Foi assim que se tornou cotidiana uma tecnologia que um dia foi tão debatida quanto hoje é a IA. É a hora e a vez da governança de IA.
Luis Fernando Prado é sócio do Prado Vidigal Advogados, diretor-executivo do Instituto Brasileiro de Inovação e Regulação Aplicada (IBIRA) e líder do Comitê de IA Responsável da Associação Brasileira de IA (Abria).





