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Mercado financeiro passou por transformação silenciosa

Mercado financeiro passou por transformação silenciosa
Transformação foi impulsionada por uma agenda consistente da CVM e do Banco Central
Por Pedro Saad Abud
Os mercados financeiro e de capitais do Brasil atravessam uma transformação estrutural histórica. Em 2025, pela primeira vez, o mercado de capitais superou o sistema bancário tradicional como principal fonte de financiamento corporativo no País, segundo dados do Banco Central e da Anbima. O volume de ofertas públicas alcançou o recorde de R$ 838,8 bilhões em 2025, com destaque para debêntures, Fidcs, CRAs e notas comerciais.
Mais do que uma mudança estatística, trata-se de uma alteração profunda na dinâmica de acesso ao capital. Empresas de middle market, historicamente dependentes dos grandes bancos, passaram a acessar instrumentos antes restritos a grandes companhias.
Essa transformação foi impulsionada por uma agenda consistente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central focada em concorrência, modernização regulatória e democratização financeira. No âmbito do BC, o Pix, o open finance, a regulamentação de instituições de pagamento e o espaço para fintechs de crédito reduziram as barreiras de entrada. Em paralelo, a CVM promoveu mudanças como o novo marco dos fundos de investimento, a simplificação do acesso de companhias menores e a expansão dos Fiagros.
O efeito dessas medidas foi a gradual “desbancarização” parcial do crédito corporativo, gerando a coexistência de múltiplas fontes de financiamento. A concorrência tende a reduzir o custo de capital e ampliar a eficiência das empresas. Nesse contexto, governança corporativa e compliance deixam de ser uma agenda apenas reputacional: empresas robustas e transparentes captam recursos de forma mais rápida, previsível e barata.
O desafio regulatório, porém, passou a ser a calibragem. A expansão dos mercados impõe desafios frente à limitação da estrutura da CVM e do BC. Estruturas financeiras sofisticadas, quando mal supervisionadas, podem ser usadas para fraudes e lavagem de dinheiro, exigindo forte monitoramento de risco sistêmico. A recente decisão do STF que proibiu a retenção das taxas arrecadadas pela CVM tende a ampliar a sua capacidade orçamentária e fiscalizatória.
Ainda assim, o maior obstáculo talvez não seja jurídico. O País avançou na infraestrutura regulatória, mas convive com juros elevados, insegurança fiscal e volatilidade macroeconômica. Nenhuma modernização será suficiente sem a melhora econômica.
A direção, contudo, é irreversível. O mercado de capitais deixou de ser restrito a grandes emissores. Se conseguir combinar estabilidade econômica, previsibilidade regulatória e disciplina de governança, o País transformará seus mercados em uma das principais ferramentas de desenvolvimento das próximas décadas.
Pedro Saad Abud
Advogado
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