PORTFÓLIO

HPB em debate: especialista destaca avanços no tratamento da próstata aumentada e alerta para sintomas que costumam ser ignorados
Desmistificando a HPB: saiba como os tratamentos cirúrgicos não afetam a vida sexual e a importância da experiência do cirurgião
Patrícia Marins e Cila Schulman*
A hiperplasia prostática benigna (HPB), condição que afeta grande parte dos homens com o avanço da idade, esteve entre os temas discutidos pelo urologista Alexandre Iscaife durante a programação do XIX Congresso Paulista de Urologia, ocorrido recentemente, em São Paulo. O especialista participou como debatedor da plenária “HPB e sintomas mistos” e também apresentou uma aula sobre o tratamento cirúrgico de próstatas volumosas, com mais de 80 gramas, abordando o uso das técnicas HoLEP/ThuLEP.
Segundo Iscaife, alterações aparentemente simples, como jato urinário fraco, aumento da frequência das idas ao banheiro e necessidade de urinar durante a noite, podem ser os primeiros sinais da HPB. Embora muitas vezes sejam encarados como parte natural do envelhecimento, esses sintomas podem evoluir e comprometer significativamente a qualidade de vida.
A atenção ao problema também é importante para diferenciar a HPB de outras doenças da próstata. “A HPB é uma doença benigna: não é câncer e não vira câncer”, explica o urologista, ressaltando, porém, que as duas condições podem coexistir e que cabe ao especialista realizar a investigação adequada. Quando a doença evolui e os medicamentos deixam de oferecer uma resposta satisfatória, os procedimentos cirúrgicos passam a ser uma alternativa. Entre as técnicas disponíveis, Iscaife destaca a enucleação da próstata a laser, conhecida como HoLEP, procedimento minimamente invasivo que pode ser utilizado inclusive em próstatas de grande volume.
Pioneiro na realização da técnica no Brasil, onde iniciou o procedimento em 2015, Iscaife já acumula mais de 2 mil casos operados e experiência internacional na área. Nesta entrevista exclusiva, o urologista explica quando é necessário investigar os sintomas, quais sinais não devem ser ignorados, as opções de tratamento e os principais mitos que ainda cercam a cirurgia para próstata aumentada.
MK: A partir de que idade o homem deve começar a prestar atenção aos sintomas urinários e investigar a saúde da próstata?
Dr. Alexandre Iscaife: A idade mais comum de início dos sintomas é após os 50 anos; entretanto, existem casos em que os sintomas começam até mais cedo, por volta dos 40 anos, principalmente em pacientes com antecedentes familiares ou que apresentam uma variante da hiperplasia chamada hipertrofia do colo vesical. Aos 60 anos, cerca de 50% dos homens já apresentam algum grau de sintomas, e esse percentual sobe para 70–80% aos 80 anos.
MK: Quais são os primeiros sinais da Hiperplasia Prostática Benigna (HPB) que costumam ser ignorados pelos homens?
Dr. Alexandre Iscaife: Alterações no fluxo urinário, o famoso “jato fraco”, idas mais frequentes ao banheiro durante o dia (polaciúria) e aumento da frequência noturna (noctúria). Tudo isso surge de forma incipiente, e os pacientes acabam por procurar ajuda apenas quando os sintomas se agravam e começam a prejudicar a qualidade de vida.
MK: HPB é uma consequência inevitável do envelhecimento ou existem fatores que podem aumentar o risco e influenciar sua evolução?
Dr. Alexandre Iscaife: O envelhecimento é o principal fator de risco; com o tempo, alterações hormonais envolvendo a testosterona, a DHT (di-hidrotestosterona) e o estrógeno, que não são completamente entendidas, acabam por levar ao aumento da próstata e ao surgimento dos sintomas. Sabemos também que condições inflamatórias crônicas, como a síndrome metabólica, a obesidade e o sedentarismo, são fatores de risco importantes. Não podemos nos esquecer dos fatores genéticos: parentes de primeiro grau apresentam risco aumentado de desenvolver a hiperplasia da próstata de forma mais precoce.
MK: É comum o homem confundir os sintomas da HPB com sinais de câncer de próstata?
Dr. Alexandre Iscaife: Sim, mas isso ocorre por desconhecimento da diferença básica entre as doenças. O câncer de próstata não apresenta sintomas em fases iniciais ou intermediárias; apenas em fases muito avançadas da doença pode dar sintomas semelhantes aos da hiperplasia. Por outro lado, a hiperplasia da próstata se apresenta já com sintomas do trato urinário inferior: jato fraco, esforço miccional e aumento da frequência urinária diurna e noturna.
MK: Como diferenciar essas condições?
Dr. Alexandre Iscaife: A HPB, como o nome já diz, é uma doença benigna: não é câncer e não vira câncer. Sua evolução pode ser extremamente deletéria para o paciente, que pode necessitar de sonda, ter perda da função dos rins, infecções etc., mas a doença não é câncer. A hiperplasia surge em uma parte da próstata chamada zona de transição, enquanto o câncer surge na zona periférica. O câncer é uma doença de progressão agressiva, com possibilidade de invasão de outros órgãos (como a bexiga) e metástases para linfonodos (gânglios, ossos etc.), podendo levar à morte do indivíduo.
MK: A HPB não se transforma em câncer, mas ter a próstata aumentada pode dificultar ou atrasar o diagnóstico de um tumor maligno?
Dr. Alexandre Iscaife: Não deveria, pois o urologista está apto a diferenciar as doenças e a pedir exames para afastar ou investigar o câncer (como PSA, ressonância magnética e biópsia). É importantíssimo salientar que ambas as doenças (HPB e câncer) podem coexistir — e é até comum que isso aconteça —, e o médico precisa estar apto a fazer o diagnóstico diferencial e propor o tratamento adequado.
MK: Em que momento os sintomas deixam de ser apenas um incômodo e passam a representar um risco para a saúde do paciente?
Dr. Alexandre Iscaife: Nas fases iniciais, os sintomas não incomodam muito; porém, com o passar do tempo, a qualidade de vida começa a ser comprometida e, caso nada seja feito, pode ocorrer uma obstrução severa à saída de urina, com a chamada retenção urinária. Essa é uma situação dramática, em que o paciente não consegue urinar e apresenta extremo desconforto e dor, sendo necessária a colocação de uma sonda pela uretra até a bexiga. Caso isso não seja feito prontamente, pode ocorrer perda da função dos rins (insuficiência renal), infecções e sangramento. Cronicamente, isso leva à perda da musculatura da bexiga, causando prejuízo à sua função, sendo necessário o uso de sonda (ou cateterismo) de forma permanente.
MK: Quais são hoje as principais opções de tratamento para HPB e como o médico decide entre acompanhamento, medicamentos e procedimentos?
Dr. Alexandre Iscaife: As opções de tratamento começam com a mudança no estilo de vida: deixar o sedentarismo, praticar atividades físicas, perder peso e adotar uma alimentação rica em vegetais e com redução de gorduras. A primeira linha de tratamento, quando os sintomas são leves, é o uso de medicações como os alfa-bloqueadores (tansulosina, doxazosina) e os inibidores da 5-alfa-redutase (finasterida e dutasterida); caso o paciente opte por usá-las, o tratamento deve ser contínuo. Entretanto, quando os sintomas são moderados a graves, com a qualidade de vida comprometida, quando há intolerância aos medicamentos, quando o paciente não quer mais tomar remédios ou quando os exames mostram alterações (lesões na parede da bexiga, resíduo urinário elevado, formação de pedras na bexiga), a cirurgia é o melhor tratamento. Temos de ter em mente que a HPB é uma doença curável, mas somente a cirurgia realmente cura. Hoje o melhor método é a enucleação da próstata a laser (o HoLEP – Holmium Laser Enucleation of Prostate), amplamente estudado, com vasta literatura científica há mais de 20 anos, mostrando resultados excelentes em próstatas de qualquer tamanho. A recuperação é de apenas um dia, podendo o paciente voltar às atividades do dia a dia no dia seguinte, com mínimos riscos de sangramento e chances praticamente inexistentes de a próstata voltar a crescer. A cirurgia é feita pela uretra, com aparelhos ultrafinos, nos quais utilizamos um laser para retirar todo o núcleo (adenoma) da próstata, liberando completamente o fluxo urinário. Não há qualquer corte no abdome, sendo minimamente invasiva.
MK: Os tratamentos para HPB podem afetar a vida sexual do homem?
Dr. Alexandre Iscaife: Sim, as medicações podem afetar sobremaneira a vida sexual. A tansulosina e a doxazosina podem causar ejaculação retrógrada, e a finasterida e a dutasterida podem causar perda da libido e impotência. A cirurgia não afeta a libido nem a ereção, mas pode causar ejaculação retrógrada em graus variáveis.
MK: O que o paciente precisa saber antes de escolher uma terapia?
Dr. Alexandre Iscaife: Ele deve saber o quanto pode melhorar com cada terapia, os efeitos adversos e o tempo de tratamento. As medicações podem melhorar os sintomas nos casos leves, mas os efeitos colaterais, os resultados muitas vezes insatisfatórios e a necessidade de uso contínuo causam baixa adesão dos pacientes. Com relação às diversas técnicas cirúrgicas, o paciente deve conhecer os riscos inerentes ao procedimento, as chances de sangramento, a invasividade, o tempo de internação e o risco de necessitar de nova cirurgia no futuro. É fundamental que o paciente saiba sobre a experiência do cirurgião no procedimento escolhido, pois o sucesso depende fundamentalmente da técnica e da habilidade do cirurgião.
MK: Hábitos de vida, alimentação, atividade física ou controle de doenças como diabetes e obesidade podem ajudar a prevenir ou controlar a evolução da HPB?
Dr. Alexandre Iscaife: Sim, existem evidências consistentes de que hábitos de vida podem influenciar tanto a prevenção quanto a progressão da HPB. O processo não pode ser revertido, mas pode ser atenuado, e a progressão pode ser mais lenta. Na alimentação, é importante a redução de alimentos gordurosos e de carne vermelha, substituindo-os pelo aumento da ingestão de vegetais, frutas e fibras. A diabetes e a obesidade causam aumento da inflamação, que é uma das causas da HPB. Seu tratamento adequado, com perda de peso e atividade física, melhora os sintomas e pode ajudar a reduzir a progressão da doença. É preciso ter em mente que o que é bom para o coração também é bom para a próstata.
MK: Qual é o principal mito sobre próstata aumentada que ainda precisa ser combatido entre os homens?
Dr. Alexandre Iscaife: Acredito que o principal mito se refere à ideia de que os tratamentos cirúrgicos da próstata aumentada (HPB) causam impotência sexual. Isso não é verdade e ocorre por uma confusão com os tratamentos para o câncer de próstata, que são completamente diferentes dos tratamentos para HPB. Os tratamentos cirúrgicos para HPB, quando realizados por um cirurgião experiente, não causam impotência sexual nem queda na libido.
* Cristiane Pinheiro é jornalista.





