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CNPJ técnico: de médicos a advogados, quem vai precisar ter e o que muda na hora de pagar impostos
Profissionais liberais e autônomos que trabalham como pessoa física estão sujeitos à nova exigência, que não configura a abertura de empresa
Por Márcia Rodrigues
Você é profissional liberal ou atua no trabalho como pessoa física e ficou na dúvida sobre se vai precisar abrir um CNPJ por causa da reforma tributária? O Descomplica PJ explica nesta reportagem.
Apesar do nome, o chamado CNPJ técnico não transforma ninguém em empresa. Não representa natureza jurídica ou contrato social.
Ele é um cadastro criado na reforma tributária para que pessoas físicas que exercem certas atividades, como médicos, advogados, contadores, dentistas, engenheiros e consultores, entre tantas outras carreiras, possam cumprir as novas obrigações da reforma tributária, explica Lea Vidigal, sócia do escritório Lea Vidigal Advocacia.
A exigência começa a valer em janeiro de 2027 e, até lá, vale a pena entender se a regra se aplica ao seu caso. Ele estará disponível para solicitação a partir de novembro de 2026, segundo o governo.
Quem precisará fazer esse cadastro? Como fazer? Será preciso contratar um contador? O Descomplica PJ conta tudo para você.
Afinal, o que é o CNPJ técnico?
Na prática, o CNPJ técnico servirá para que pessoas físicas que atuam como profissionais liberais e autônomos possam cumprir as obrigações relacionadas aos novos tributos sobre o consumo, o IBS e a CBS. Explicamos nesta reportagem como a nota deve ser emitida.
O IBS é o Imposto sobre Bens e Serviços, e a CBS, a Contribuição sobre Bens e Serviços.
O IBS substitui os atuais ISS (Imposto Sobre Serviços) e ICMS (Impostos sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços), enquanto a CBS entra no lugar do PIS e da Cofins, que são dois tributos federais.
O profissional com CNPJ técnico terá que emitir documento fiscal eletrônico nas situações previstas pela legislação e discriminar os dois tributos citados – isso a partir de janeiro de 2027.
Esse cadastro não transforma a pessoa física em pessoa jurídica.
Isso significa que quem precisar fazer a inscrição não terá de escolher um regime tributário, como Simples Nacional, Lucro Presumido ou Lucro Real, explica Edgar Junqueira Freire, do escritório Rolim Goulart & Cardoso Advogados.
“O chamado CNPJ técnico terá apenas finalidade cadastral e operacional para o cumprimento das obrigações ligadas ao IBS e à CBS”, diz o advogado.
Quem precisará fazer esse cadastro?
Essa talvez seja a principal dúvida de quem trabalha como pessoa física.
Nem toda pessoa física precisará do CNPJ técnico, afirma Alice Parentoni de Oliveira Brêttas, também do escritório Rolim Goulart & Cardoso Advogados.
Segundo a advogada, a regra vale para pessoas físicas que trabalham por conta própria, enquadradas como contribuintes do IBS e da CBS, como advogados, médicos, engenheiros e consultores, entre outros – não todos os profissionais dessas categorias, mas parte deles.
É o caso também, por exemplo, de produtores rurais acima do limite de receita previsto na reforma tributária, de R$ 3,6 milhões ao ano.
Já Carlos Eduardo Navarro, sócio de Galvão Villani, Navarro, Zangiácomo e Bardella Advogados, diz que a própria regulamentação prevê, em princípio, a obrigatoriedade do cadastro para todos os contribuintes do IBS e da CBS e também para o chamado “nanoempreendedor”, embora ele ressalte que essa extensão da regra gera questionamentos jurídicos.
O “nanoempreendedor” representa uma categoria tributária nova de pessoas físicas que trabalham por conta própria, como autônomos, com faturamento anual de até R$ 40,5 mil.
Por outro lado, pessoas físicas que apenas trabalham com carteira assinada ou atuam como administradores e membros de conselhos, por exemplo, não estão entre os casos alcançados pela exigência, segundo Freire.
Quem já atua por meio de uma empresa constituída (como MEI, LTDA ou Empresário Individual) também não precisa fazer o cadastro técnico.
Como será a abertura do CNPJ técnico?
A previsão é que o sistema comece a funcionar a partir de novembro, segundo Alice Parentoni de Oliveira Brêttas.
“A operação deve vir acompanhada da publicação gradual das respectivas orientações e dos atos normativos complementares necessários à sua implementação”, diz a advogada.
Freire acrescenta que a Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS trabalham em um sistema inspirado no modelo do MEI.
“A proposta é oferecer uma inscrição digital, rápida e automatizada, integrada aos sistemas de emissão de documentos fiscais. Enquanto isso, a orientação é acompanhar as informações que serão divulgadas pelos órgãos responsáveis.”
O que muda na prática?
Na prática, quem estiver obrigado a abrir um CNPJ técnico terá uma rotina um pouco diferente da atual. Terá de emitir documento fiscal eletrônico nas situações previstas pela legislação, por exemplo.
A principal obrigação acessória, de acordo com Navarro, deverá ser validar a chamada apuração assistida, sistema que reunirá automaticamente as informações sobre créditos e débitos dos novos tributos.
Alice acrescenta que a emissão das notas fiscais alimentará essa apuração. Caso seja necessário, o contribuinte poderá confirmar ou ajustar as informações. Até o momento, não foi criada uma declaração específica apenas por causa da inscrição no CNPJ técnico.
Preciso contratar um contador?
A resposta é: não necessariamente. Pelo menos não por causa do CNPJ técnico.
A legislação não obriga a contratação de um contador apenas por causa do CNPJ técnico, segundo Lea Vidigal.
No entanto ela recomenda buscar orientação especializada para entender como a reforma tributária afetará cada atividade e evitar perda de créditos fiscais ou aumento desnecessário da carga tributária.
Freire faz uma recomendação semelhante. Para ele, a necessidade de apoio contábil dependerá da atividade exercida e da complexidade das operações, mas esse acompanhamento pode facilitar o cumprimento das novas obrigações.
O que fazer até janeiro de 2027?
Como a obrigatoriedade foi adiada, este é um momento propício para entender se a sua atividade será alcançada pelas novas regras.
Vale acompanhar a divulgação do sistema de inscrição, verificar se os programas utilizados para emissão de documentos fiscais precisarão ser atualizados e conhecer as mudanças trazidas pelo IBS e pela CBS.
Assim, quando o novo sistema estiver disponível, a adaptação tende a ser bem mais tranquila.
https://investnews.com.br/negocios/cnpj-tecnico-quem-vai-precisar-ter/





