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Fundos estressados voltam ao radar da LAD Capital
Com R$ 2,5 bilhões sob gestão, a gestora afirma que o aumento das dificuldades no mercado reacendeu a demanda por fundos estressados, enquanto juros elevados e crédito restrito ampliam oportunidades para reestruturações e M&A estratégico
Jaqueline Mendes
A combinação de juros elevados, crédito restrito e maior escrutínio sobre gestores e administradores de fundos tem criado um ciclo de oportunidades para um segmento que parecia ter desaquecido nos últimos anos: o dos fundos estressados. Para a LAD Capital, gestora independente com R$ 2,5 bilhões sob gestão, o movimento reflete uma reorganização da indústria de fundos e uma demanda crescente por casas capazes de assumir estruturas complexas e conduzir processos de reestruturação.
A avaliação marca, de certa forma, um retorno às origens da própria gestora. Fundada em 2017, a LAD nasceu com foco em distressed assets, expressão que, segundo os sócios, inspirou o próprio nome da empresa, Latin American Distressed. Com o amadurecimento da operação, o escritório ampliou a atuação em fundos patrimoniais, private equity e estruturas voltadas ao desenvolvimento de empresas, sem abandonar a experiência acumulada em ativos mais complexos.
Agora, segundo André Fernandez e Luiz Felipe Terra Favieri, sócios e cofundadores da LAD Capital, esse conhecimento ganha relevância novamente diante das mudanças pelas quais passa o mercado. A história recente de fundos e gestoras em liquidação demonstra um movimento de depuração. Em decorrência disso, a leitura dos sócios é a de que o mercado de estressados volta com vigor. “Esse ajuste de agentes que estão saindo com problemas nos abre um mapa de oportunidades interessantes”, diz Fernandez. “Existem ativos e cotistas à procura de outras casas. Isso aumenta a oferta de fundos para nós e para o mercado.”
Atualmente, a gestora acompanha 50 empresas investidas em diferentes setores da economia e afirma que voltou a ser procurada para assumir fundos em situações complexas, muitas vezes não por problemas relacionados aos ativos, mas por dificuldades envolvendo a estrutura de gestão ou administração dos veículos.
Mercado volta a demandar especialização
Favieri, que também atua como diretor de Riscos e Compliance, conta que a primeira fase da LAD foi marcada pela recuperação de fundos com dificuldades operacionais e estruturas que precisavam ser reorganizadas. Ao longo dos anos, a gestora passou a estruturar novos Fundos de Investimento em Participações (FIPs) e fundos patrimoniais para grupos empresariais, ampliando sua atuação em private equity. Atualmente, as duas frentes convivem. Mas, quando se trata de distressed assets, o executivo diz que assumir um fundo nessa situação exige mais do que substituir um gestor. “Quando a gente chega em um fundo estressado, tem que romper um pouco com o passado e criar uma tese nova”, afirma. “Ainda que a conclusão seja parecida com a anterior, é preciso reconstruir toda a lógica do investimento.”
Fernandez acrescenta que a dupla habilitação da empresa junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), como gestora e administradora fiduciária, ajudou a consolidar esse posicionamento ao longo dos últimos anos, principalmente em operações nas quais a liquidação do fundo poderia destruir valor para investidores e empresas investidas. “Liquidar fundo não é sadio para o sistema”, ressalta o executivo que também é diretor da área de Recursos de Terceiros da LAD.
Crédito caro muda a dinâmica do mercado
Na avaliação dos sócios, o ambiente macroeconômico continua impondo dificuldades para empresas que dependem de capital para crescer. Apesar do discreto início do ciclo de redução da taxa de juros, o custo do crédito permanece elevado e limita novas captações. “O governo concorre com as empresas porque a Selic está lá em cima”, diz Favieri. Do outro lado, estão os empresários que necessitam encontrar maneiras de financiar seus negócios. “As empresas estão alavancadas e precisam de dinheiro. Não existe mais compra de equity, quase, no Brasil. Não tem IPO.”
Segundo ele, esse cenário tem levado empresas a buscar alternativas de financiamento que passam por FIPs, estruturas proprietárias e outras soluções do mercado de capitais. A percepção da gestora é de que a dificuldade já alcança companhias de grande porte. “Recentemente, fizemos reunião com uma empresa que fatura R$ 6 bilhões. Mesmo sendo uma operação enorme, ela encontra dificuldade para captação em bancos”, relata Favieri.
A percepção também aparece nas conversas que a gestora mantém com investidores internacionais. Segundo os executivos, a LAD promove encontros periódicos em Portugal para apresentar oportunidades do mercado brasileiro, mas o interesse pelo País esbarra em dúvidas sobre previsibilidade e segurança jurídica. “O Brasil tem muita oportunidade, mas está complicado para o investidor de fora”, afirma Favieri. Os estrangeiros, segundo ele, têm dificuldade de entender o ambiente regulatório e, “quando eles vêm confiando em uma casa que acaba envolvida em problemas, isso queima o mercado.”
Fusões ganham caráter estratégico
Ainda assim, oportunidades de M&A têm sido acompanhadas de perto por empresas estrangeiras e brasileiras. Os sócios avaliam que o mercado de fusões e aquisições continua ativo, mas com um perfil diferente daquele observado em ciclos anteriores de expansão. Para Favieri, o movimento atual é menos oportunista e mais voltado ao fortalecimento operacional das empresas. “As fusões hoje são estratégicas. Empresas do mesmo setor ou complementares estão se juntando para ganhar força”, afirma.
O executivo acrescenta que a necessidade de preservar margens e fortalecer a estrutura de capital vem estimulando movimentos de consolidação, inclusive por meio da verticalização de cadeias produtivas. “Quem tem caixa pode adquirir um concorrente, um fornecedor ou um distribuidor”, diz Favieri. “As margens estão cada vez menores e isso cria oportunidades.”
Na visão dos sócios, a maior preocupação dos investidores produtivos, hoje, não está necessariamente na volatilidade dos mercados financeiros, mas na previsibilidade do ambiente de negócios. “O capital especulativo continua vindo para o Brasil. Mas o dinheiro, de fato, para investimento produtivo está difícil”, afirma Favieri. “O empresário tem mercado para expandir, mas prefere não investir por causa da insegurança e do custo do capital.”
É nesse ambiente que os sócios veem as fusões acontecendo e com boas perspectivas à frente. “As empresas se dão as mãos para crescer juntas. Petz e Cobasi são um grande exemplo disso”, explica Favieri. “Cada uma sozinha estaria morta. Hoje, as duas juntas têm uma eficiência melhor.”
Governança é o principal filtro
Para operações em M&A, a governança das empresas envolvidas passa por um crivo rigoroso. Na escolha da LAD pelas companhias em que vai investir, não é diferente. Se o ambiente econômico ficou mais desafiador, o nível de exigência para novos investimentos também aumentou. Segundo os sócios, governança corporativa, compliance e controles internos ocupam posição central no processo de seleção de empresas. “Hoje, a gente subiu muito a régua. Quando olhamos uma empresa para investir, governança é o principal ponto”, afirma Fernandez.
Ele reforça que a preocupação vai além da análise financeira e passa por outros critérios. “Mais do que nunca, governança e compliance”, diz o executivo. A gestora busca empresas auditadas, com estrutura societária organizada e controles capazes de reduzir riscos para investidores e demais envolvidos.
Na outra ponta dos negócios, segundo a avaliação dos sócios, muitos empresários ainda demonstram resistência à entrada de fundos de investimento por receio de perder autonomia. Ainda assim, esse comportamento tende a mudar à medida que o acesso ao crédito se torna mais restrito e a necessidade de profissionalização aumenta.
O ambiente provoca um aculturamento forçado dos empresários, mas os sócios não acreditam em uma mudança rápida do cenário para empresas que dependem do mercado de capitais. Para a LAD, a reorganização em curso na indústria de fundos ainda deve produzir novas oportunidades para gestoras especializadas. O reaquecimento dos ativos estressados é um exemplo, e Fernandez e Favieri estão atentos aos movimentos. “Esse ajuste do mercado vai abrir uma oportunidade importante para quem sabe fazer esse trabalho”, completa Favieri.
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