carregando...

PORTFÓLIO

Mulher leva carro para consertar e veículo desaparece: ‘Nunca mais vi’

27 de fevereiro, 2026

Igor Ribeiro
Do UOL, em São Paulo

Imagem: Arquivo Pessoal

O que era para ser um conserto simples virou um prejuízo de quase R$ 20 mil para a atriz e dubladora Eduarda Martins, 23. Ela afirma ter perdido o carro depois de deixá-lo para reparos em uma oficina na zona leste de São Paulo. O veículo nunca foi devolvido. A oficina mecânica não retornou aos pedidos de contato feitos pela reportagem.

O que aconteceu

Eduarda deixou seu Renault Clio 2007 na Mecânica Fórmula Rápida, na Ponte Rasa, no dia 2 de abril de 2025 para troca de rolamentos e outros reparos. O pagamento foi feito parcialmente, e ela guardou comprovantes e conversas por WhatsApp, segundo relatou em boletim de ocorrência obtido pelo UOL.

O prazo inicial para o conserto era de uma semana, mas as justificativas para o atraso se multiplicaram. Depois de mais de um mês, Eduarda pressionou pela devolução do carro, mas não conseguiu mais contato. Ao voltar à oficina, encontrou o imóvel vazio e foi informada que o mecânico e a esposa haviam deixado o local levando o Renault Clio.

Eu deixei meu carro para consertar e nunca mais vi. Não foi furto, não foi roubo, mas eu perdi o meu carro do mesmo jeito.
Eduarda Martins

Eduarda registrou a perda na polícia no fim de junho, mas, antes de fazer boletim de ocorrência, o carro acumulou multas na zona leste de São Paulo. Entre as infrações registradas para o veículo estão excesso de velocidade, avanço de sinal vermelho e circulação em faixa exclusiva. As multas chegaram perto de R$ 1.000. Eduarda calcula o prejuízo em quase R$ 20 mil, somando valor do veículo, multas e custos com advogado. Ela estuda entrar com uma ação cível.

O caso foi registrado como apropriação indébita pela polícia, e até agora o veículo não foi localizado. Apropriação indébita é quando alguém fica com um bem que recebeu de forma legítima e se recusa a devolver. É diferente do furto, por exemplo, quando algo é subtraído de alguém e a posse daquele objeto é ilícita desde o início. A Polícia Civil de São Paulo informou que busca imagens para esclarecer os fatos. A polícia não detalhou se houve indiciamento ou se os investigados foram localizados. Segundo Eduarda, eles foram intimados, mas não compareceram.

O veículo tinha seguro na modalidade que incluía roubo, furto, assistência 24h e perda total. Mas, como o caso foi registrado como apropriação indébita, não foi possível acionar o seguro para reaver o prejuízo. Eduarda conta que tentou modificar o boletim de ocorrência para furto, mas sem sucesso. A seguradora Píer informou, em nota, que “não houve registro de sinistro referente ao caso informado”.

O caso ganhou repercussão nas redes sociais após um vídeo publicado por ela ultrapassar 1 milhão de visualizações no Instagram e 370 mil no TikTok. A atriz defende mudanças, como fiscalização de oficinas e cobertura obrigatória de apropriação indébita no seguro. “Falta informação. Eu mesma não sabia o que era apropriação indébita até acontecer comigo.”

Até hoje eu não sei se meu carro ainda existe. Eu nunca mais tive nenhuma notícia. Você entrega a chave confiando, paga pelo serviço, e, quando percebe, está sozinha para resolver um prejuízo enorme.

Os donos da oficina mecânica não responderam. UOL procurou os responsáveis pela oficina por meio de WhatsApp e redes sociais, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. Após tentativa de contato da reportagem pelo Instagram, o perfil saiu do ar. O espaço para resposta segue aberto.

O limbo do seguro

A seguradora não cobriu o caso, pois normalmente exclui apropriação indébita da cobertura padrão. O advogado Eduardo José de Oliveira Costa, especialista em direito regulatório e sócio do Lopes Muniz Advogados, explica que a apólice cobre apenas subtração sem consentimento; entregas voluntárias costumam ser excluídas, mas cláusulas ambíguas podem ser questionadas na Justiça.

Normalmente, as seguradoras negam esse tipo de cobertura com a justificativa técnica de que a apólice costuma cobrir apenas hipóteses de furto e roubo, ou seja, quando há subtração sem consentimento do proprietário, deixando de cobrir os casos de entrega voluntária (apropriação indébita ou estelionato), pois entendem que não houve subtração mediante violência, grave ameaça.
José de Oliveira Costa

E as multas?

O Detran-SP informou que a restrição criminal foi cadastrada em 1º de julho de 2025. O registro de boletim de ocorrência por apropriação indébita gera bloqueio automático do veículo nos sistemas do órgão e de outros órgãos autuadores, consultados também por agentes de trânsito em fiscalizações. O órgão afirmou que a última multa registrada no veículo foi cometida em 14 de abril de 2025, antes da inserção da restrição nos sistemas. “Não existem, portanto, multas aplicadas relativas a esse veículo após a comunicação do crime às autoridades policiais.”

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2026/02/27/nem-sei-se-ainda-existe-atriz-deixa-carro-para-conserto-e-mecanico-some.htm

Compartilhe