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Institutos de previdência investiram mais de R$ 1,5 bilhão no Banco Master

26 de janeiro, 2026

Do UOL, em São Paulo

Imagem: Divulgação

Institutos públicos de previdência dos estados do Amapá, Amazonas e Rio e de 15 municípios espalhados pelo país investiram, somados, mais de R$ 1 bilhão em papéis do Banco Master, de acordo com dados do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social). O banco passa por processo de liquidação judicial desde novembro.

O que aconteceu

Foram analisados 18 institutos, com investimentos ligados ao Banco Master de R$ 1.577.793.296,51. A maior parte do dinheiro está alocado em letras financeiras, títulos com vencimento dentro de 2 anos ou mais e sem possibilidade de resgate antecipado. O valor representa cerca de 3,5% do total investido pelas instituições analisadas.

Juntos, os institutos atendem mais de 250 mil beneficiários. De acordo com dados do INSS, mais de 180 mil aposentados e cerca de 70 mil pensionistas recebem dinheiro desses órgãos, localizados em nove estados das regiões Centro-Oeste, Nordeste, Norte e Sudeste do país.

Previdência de servidores do estado do RJ investiu quase R$ 1 bi

Rioprevidência investiu R$ 970 milhões em papéis do Master. O valor representa 10% de todos os investimentos do órgão. Realizadas entre outubro de 2023 e agosto de 2024, nove compras de títulos motivaram fiscalização do INSS no órgão, que paga benefícios a 190 mil pessoas e nega irregularidades na transação.

Movimentação foi alvo de operação da PF. O presidente da Rioprevidência foi exonerado após ser alvo de busca e apreensão na Operação Barco de Papel. A PF apontou risco elevado e finalidade incompatível com o fundo, voltado para a aposentadoria complementar dos servidores.

Em outubro de 2024, deputado estadual pediu esclarecimentos à Rioprevidência. Um ofício de Luiz Paulo (PSD) pediu detalhes sobre “medidas implementadas para mitigar os riscos de mercado, de crédito, de liquidez e de outros fatores que possam impactar negativamente a sustentabilidade” do fundo, mas não foi respondido.

Aposentadorias e pensões serão pagas com dinheiro do Tesouro Estadual em caso de insuficiência financeira. A informação foi passada pelo Rioprevidência.

Valor descontado em folha de empréstimo consignado ficará com o Rioprevidência. Segundo a autarquia, uma decisão judicial determinou que os valores sejam por ela retidos em vez de repassados ao Banco Master.

Amapá e Amazonas também investiram no Master

No Amapá, Justiça determinou que descontos de empréstimos consignados feitos por aposentados e pensionistas não sejam repassados ao Master. A pedido do Amapá Previdência, os R$ 400 milhões a serem pagos por beneficiários ficarão no Banco do Brasil, para evitar problemas em meio à liquidação do Master.

Em outubro, o instituto de previdência do Amazonas monitorava “rumores sobre a incapacidade do banco [Master] em honrar com seus compromissos”. A informação consta em documento enviado ao INSS. Com mais de 35 mil beneficiários, o Amazonprev tinha R$ 59.287.317,30 em papéis do Master em novembro do ano passado.

Previdências municipais

Master tinha “solidez financeira” no momento dos investimentos, afirma Maceió Previdência. O órgão tem R$ 120 milhões em papéis do Master. Já o Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (MS) tem R$ 1,4 milhão investido no banco. Os dois institutos têm cerca de 7 mil beneficiários cada.

No estado de São Paulo, cidade do interior investiu R$ 2 milhões em fundo administrado pelo Master. O Instituto de Previdência Municipal de Santa Rita d’Oeste fez aplicações de R$ 1 milhão em 23/12/24 e 18/02/25 no Texas I, cuja composição incluía 99,76% de ações de uma mesma empresa. O caso gerou alerta no Ministério Público de Contas.

Fundos pouco diversificados, como o fundo Texas, apresentam risco elevado para os cotistas, uma vez que o desempenho da cota está totalmente atrelado à valorização ou desvalorização de um único papel, que está sujeito a oscilações decorrentes de fatores específicos daquela empresa, como resultados financeiros, mudanças regulatórias, governança corporativa, ou até mesmo eventos reputacionais
Ministério Público de Contas de São Paulo, em representação

Município conseguiu reaver em outubro de 2025 valores investidos. Em nota, o Instituto Municipal de Previdência de Santa Rita d’Oeste disse que aplicações “seguiram critérios técnicos” e relatórios de consultorias especializadas. Segundo órgão, não houve “qualquer prejuízo” para o instituto e seus segurados.

Em alguns casos, municípios abriram sindicâncias para investigar investimentos. Um exemplo é Araras (SP), onde três títulos avaliados em mais de R$ 30 milhões foram adquiridos em 2024. Em Paulista (PE), a compra de papéis estimados em R$ 3 milhões aconteceu “à revelia da governança interna”, diz prefeitura.

Apesar dos problemas, institutos afirmam que pagamento de aposentados e pensionistas está garantido. Em novembro, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master após identificar em sua operação “graves violações” às normas que regem o Sistema Financeiro Nacional — entre outros motivos.

Especialista recomenda atenção

Para advogado, é provável que fundos percam dinheiro investido. Segundo Angelo Paschoini, especialista em direito tributário e financeiro e sócio-fundador do Paschoini Advogados, isso deve acontecer porque o resgate dos valores depende da liquidação do patrimônio do Master, que não deve cobrir o prejuízo.

Especialista indica que beneficiários fiquem atentos. Paschoini recomenda que quem recebe desses fundos submeta seus demonstrativos financeiros a especialistas e, em caso de problemas no pagamento de benefícios, acionem os institutos nos respectivos Tribunais de Contas dos Estados.

“Em outros países, a diversificação dos investimentos nesse tipo de fundo é regulada por lei e, em muitos casos, há restrições à compra de papeis privados”.
Angelo Paschoini, advogado especialista em direito tributário e financeiro e sócio-fundador do Paschoini Advogados

Problemas não se restringem a institutos de previdênciaNo estado do Rio, a Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgoto) manteve mais de R$ 240 milhões investidos em CDBs do Banco Master mesmo após ser alertada sobre os riscos da operação em outubro de 2024 por Luiz Paulo.

Procurados, os institutos de previdência de 12 estados negaram ter investido no Master. Órgãos de Alagoas, Bahia, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins informaram não ter papéis do banco hoje em liquidação.

Além dos órgãos citados, institutos de 12 capitais também disseram não ter investido no Master. Eles funcionam em Aracaju (SE), Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Manaus (AM), Palmas (TO), Porto Alegre (RS) Porto Velho (RO), Rio Branco (AC), São Paulo (SP), Teresina (PI) e Vitória (ES).

Os demais institutos de previdência estaduais e de capitais não retornaram os contatos da reportagem. O espaço segue aberto a manifestações.

O que dizem os envolvidos

O Rioprevidência esclarece que todos os investimentos realizados junto ao Banco Master entre 2023 e 2024 seguiram rigorosamente a legislação vigente à época, bem como a Resolução CMN nº 4.963/2021, e foram efetuados dentro dos limites previamente aprovados pelo Conselho de Administração (CONAD) e pelo Plano Anual de Investimentos
Rioprevidência, em nota enviada ao UOL

Como a aplicação foi realizada em instituição financeira com nota inferior ao permitido pela política vigente do AparecidaPrev contrariando os critérios estabelecidos, assim que assumiu a gestão, em janeiro de 2025, a atual presidente do AparecidaPrev, Márcia Tinoco, notificou o Conselho Deliberativo da Previdência, e comunicou formalmente os órgãos de controle e apresentou denúncia ao Ministério Público e ao Ministério da Previdência
AparecidaPrev (Instituto de Previdência dos Servidores de Aparecida de Goiânia-GO), em nota enviada ao UOL

A São Roque Prev já instaurou um procedimento administrativo interno, que se encontra em fase de emissão de parecer jurídico, com a finalidade de avaliar os caminhos legais possíveis a serem adotados sobre o caso (…) A São Roque Prev reafirma que adotará todas as medidas legais cabíveis para proteger os interesses de seus segurados
São Roque Prev (Instituto de Previdência dos Servidores de São Roque-SP), em nota enviada ao UOL

Houve a instauração de procedimento administrativo para o credenciamento junto ao Iperon, formalmente solicitado pela referida instituição financeira, oportunidade em que a Coordenadoria de Investimentos, com apoio de consultoria especializada e após análise documental, prudencial e reputacional da solicitante, concluiu que o Banco Master não atendia aos critérios mínimos exigidos para o credenciamento
Instituto de Previdência dos Servidores Públicos do Estado de Rondônia, em nota enviada ao UOL

O IPREV-SC possui uma política de investimentos de acordo com a Resolução CMN 4963/2021 e Portaria MTP 1467, além disso o um regulamento de credenciamento de entidades financeiras, do qual o limitador para se credenciar são entidades com mais de R$ 100 bilhões em gestão. Nesse caso, somente grandes instituições são credenciadas, sendo que no Brasil apenas 17 instituições possuem este pré-requisito, e 7 são credenciadas no IPREV-SC, sendo elas: Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica, BTG Pactual, Banco Safra, Itaú e Banco Santander. Portanto, o IPREV-SC só pode adquirir fundos dessas instituições ou aquisições em títulos públicos, com uma estratégia conservadora e mitigando o risco para atendimento à meta atuarial (estipulada pelo índice INPC+4,5%)
Instituto de Previdência do Estado de Santa Catarina, em nota enviada ao UOL

O Igeprev investiu no então Banco Máxima (hoje Master), no Fundo Máxima, o valor de R$ 13 milhões em 15/05/2012. Posteriormente o Fundo passou a chamar: VIAJA BRASIL FIP CNPJ Nº 13.707.891/0001-62. Ocorrendo logo após, o desenquadramento do fundo, então o Instituto solicitou o resgate. Não havendo recebimento do referido resgate, o Instituto entrou com processo judicial, e o Banco Máxima fez acordo para dação em pagamento em imóveis. Recebemos R$ 13 milhões em imóveis e o fundo foi liquidado. Após isso, não foi realizado mais nenhum outro investimento nessa Instituição Bancária
Instituto de Gestão Previdenciária do Estado do Tocantins, em nota enviada ao UOL

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/01/25/institutos-de-previdencia-investiram-mais-de-r-15-bilhao-no-banco-master.htm

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