PORTFÓLIO

O caso da hiper globalização e do excesso de dependência concentrada
Todos sabemos que o mundo, a vida e o tempo não param, e que tudo muda o tempo todo, de forma que não chega a ser uma surpresa, mas uma das soluções corporativas mais festejadas há algum tempo está em xeque.
O modelo corporativo mundial (ainda vigente) baseado na interdependência, na especialização e na redução de custos, que em grande parte justificou a chamada “globalização”, está sendo revisto e rediscutido.
O que, em muitos casos, parecia ter sido uma solução e apontado para um “caminho sem volta”, parece ter ido longe demais, ter sido exagerado, e não ter considerado todos os riscos efetivamente existentes, de maneira que ajustes (em alguns casos de forma bastante profunda) serão necessários.
Em grande parte dos negócios e das empresas, pode ter sido esquecida a máxima que ensina que “tudo tem dois lados”, e que apenas os aparentes prós do referido modelo estivessem sendo considerados.
Essa chamada é importantíssima, e tende a reformular premissas de negócios, composições de conselhos de administração, e lógicas empresariais e financeiras, entre outros.
Por muitos anos, e com mais força desde a queda do muro de Berlim, no final do Século XX, o mundo vivenciou um conceito de globalização baseado no que se convencionou a chamar de lógica econômica pautada em especialização e redução de custos.
Mais ou menos na mesma linha, e com início um pouco antes, no tocante à redução de custos, passou-se a adotar, também, e com muita frequência, modelos de redução de estoques, evitando os gastos com o estoque parado, e com o seu próprio armazenamento, através do estabelecimento de recebimento de matérias primas e de componentes, de maneira mais ou menos continua, e ajustada à efetiva necessidade.
Se de um lado esses modelos de fato reduzem custos, e aumentam a especialização, de outro demandam um enorme aumento da importância e da complexidade da logística, que, por sua vez, depende, em grande medida, de infraestrutura — dois importantes gargalos que todos conhecemos .
O conceito, baseado na redução de custos não se distancia muito do que pauta grande parte das terceirizações, de etapas ou de áreas, que antes a maioria das empresas mantinha dentro de casa — e que passou a terceirizar.
Ao menos a maioria das empresas, e praticamente em todos os setores e segmentos, passou a se especializar em etapas da produção (com ainda mais força nas indústrias), terceirizando ou mesmo comprando de fornecedores que prometiam maior especialização e menores custos.
Alguns dos principais componentes de vários produtos passaram a depender de cada vez menos fabricantes e fornecedores (por vezes, também, de distribuidores), numa concentração extremamente perigosa. E com um risco alocado a esse modelo, que nem sempre foi devidamente avaliado pelas organizações.
Quem tem praticamente o monopólio em alguns casos pode não apenas aumentar preços e impor condições conforme prefira, como pode não conseguir produzir e entregar como antes prometido. E esses riscos nem sempre têm sido considerados.
A pressão pelos custos, tanto da produção em si quando da prometida maior eficiência, aliada a uma promessa de possível redução de custos de pessoal e de espaço/instalações, levou muitos investidores, executivos, gestores, conselhos e boa parte do mundo corporativo em geral, a focar no custo.
Todos sabemos que sempre há ao menos dois lados em cada tema, e que sempre há prós e contras, de forma que não é de todo surpreendente que os excessos de um lado levem a maiores riscos do outro. Mas surpreende sim que nem todas as empresas tivessem considerado essa realidade com a devida clareza.
E, agora, vivemos um certo “choque de realidade” e de exposição de riscos, que tende a gerar uma revisão das matrizes de riscos das empresas, e o aumento dos aspectos a serem avaliados pelas organizações, demandando maior cuidado ao escolherem este ou aquele momento.
Adicionalmente, planos de contingência e o estabelecimento claro de mais opções quando necessário, serão cada vez mais fundamentais.
Imaginar que a globalização vá acabar e que todos os países passarão a produzir literalmente tudo o que precisam seria impossível, e é claro que não se trata disso, mas efetivamente será preciso reavaliar esses temas.
Quem vive o mundo corporativo já vê um grande ajuste no horizonte, com tendência a uma rediscussão sobre o que, como e onde produzir, com quais parceiros, com quais riscos, e com qual grau de dependência. E uma nova avaliação de alternativas para situações de emergência que podem ser cada vez mais frequentes.
A depender do segmento, o efetivo número de produtores de alguns insumos é tão pequeno que já se fala de dependência total, o que gera um brutal aumento de riscos quando algo dá errado, seja na própria produção, seja na logística ou mesmo em desafios decorrentes de outros fatores.
Em alguns casos, países como China, Índia, Ucrânia e Rússia detêm parcela tão relevante dos insumos ligados a alguns produtos, que basicamente o “mundo depende deles”. E situação mais ou menos parecida ocorre, por outras razões, no caso de carvão, óleo e gás, ferro, semicondutores, grãos e outros.
Desde a virada da década, notadamente em função de questões bastante conhecidas e impactantes como, por exemplo, a crise sanitária relacionada à pandemia da Covid-19, e seus desdobramentos, aliados a fatores políticos e sociais, além de guerras, revoluções, represálias e, ainda, desastres naturais, sem contar aspectos econômicos como inflação e câmbio, e, ainda, questões geopolíticas, o tema da hiper globalização vem expondo um outro aspecto, qual seja, o brutal aumento de risco que dele decorre quando as coisas não caminham como o planejado.
Essa questão precisa ser enfrentada de frente e com grande cuidado, seriedade e profundidade, pois está exposta à enorme fragilidade do modelo atual, mas também à complexidade (e, por vezes, impossibilidade) de se “mudar tudo”.
Se uma nova matriz de risco está surgindo, com mais aspectos a considerar, também está surgindo uma nova mentalidade de se relacionar custos com riscos e ganhos de eficiência com aumento da dependência.
Diversas empresas têm sofrido perdas enormes, por vezes causando até a sua saída do mercado, em função de dificuldades de logística e de suprimentos, quando são muito ou até totalmente dependentes de poucos e localizados fornecedores, de forma que todos precisam rever os seus modelos.
A essa questão se somam outros aspectos como a sustentabilidade e o ESG, que já não permitem que se continue justificando a dependência de determinados fornecedores e sistemas apenas com base no custo menor. O mesmo vale, logicamente, também para condições de trabalho e falta de respeito às pessoas.
O excesso de dependência de uma ou de poucas opções do fornecimento como, por exemplo, de energia, petróleo/gás ou de água, tanto em termos de modelo quanto de países, ainda que teoricamente lastreado em custos menores, já não se sustenta quando se observa as crises de desabastecimento que têm ocorrido.
Na mesma linha, questões geopolíticas decorrentes de temas como as crises no Irã e no Oriente Médio, quase que de forma geral, a permanente tensão na Coréia do Norte e pontos mais recentes como o Brexit, a tensão da China e em Formosa, e os embargos como, por exemplo, os decorrentes da guerra na Ucrânia, dentre outros, estão mudando a realidade e a lógica corporativa.
A importância de se focar na eficiência e no controle de custos não vai passar, mas, certamente, será necessário retemperar os modelos e as matrizes, para que se encontre um novo equilíbrio entre os fatores principais, aumentando as opções de produção e de fornecimento, ainda que, nem sempre, com custos tão baixos quanto os desejáveis.
A prática tem mostrado que nem sempre se pode considerar apenas o custo, uma vez que por mais relevante que seja (e que de fato é), em alguns casos, parar toda a produção ou inviabilizar um negócio por falta de insumos ou excesso de dependência exageradamente concentrada, custa ainda mais.
. Por: Leonardo Barém Leite, advogado corporativo em São Paulo, sócio sênior de Almeida Advogados; Presidente da Comissão de Direito Societário, Governança Corporativa e ESG da OAB/SP-Pinheiros.
https://www.revistafatorbrasil.com.br/ver_noticia.php?not=426846





