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Entenda o que a PF investiga nos casos Lulinha e do filme de Bolsonaro
Do UOL, em São Paulo
Imagem: Ricardo Stuckert/PR e Andressa Anholete/Agência Senado
As investigações envolvendo Lulinha e o financiamento de Dark Horse estão no centro da corrida eleitoral. De um lado, o presidente Lula (PT) tem sido cobrado a dar explicações sobre suposto tráfico de influência do seu primogênito, Fábio Luís Lula da Silva, dentro do governo. Do outro, o senador e rival do petista nas eleições presidenciais Flávio Bolsonaro (PL) tem de responder sobre o financiamento da cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Aliados do presidente defendem que não houve crime, pois as supostas negociações que envolvem Lulinha não se concretizaram. Especialistas ouvidas pelo UOL destacaram que promessa de vantagem configura crime, mas citaram a necessidade de diferenciar tráfico de influência de lobby.
Já aliados do senador defendem que financiamento privado não é ilegal. As especialistas concordaram, apesar de ressaltarem que suposta contrapartida precisa ser apurada.
Lulinha é alvo de 3 investigações no STF
Filho de Lula é citado em três inquéritos da PF (Polícia Federal) que apuram tráfico de influência no governo. O primeiro deles, aberto em 30 de julho com autorização do ministro do STF André Mendonça, investiga se Lulinha atuou em favor de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, em uma negociação para a venda de medicamentos à base de canabidiol pela World Cannabis ao Ministério da Saúde.
Também suspeita-se que Lulinha seja sócio oculto do empresário. Os dois foram apresentados pela lobista Roberta Luchsinger, que é amiga de Fábio. Ele admitiu ter viajado a Portugal, às custas de Antunes, em um negócio intermediado pela amiga. Roberta recebeu R$ 1,5 milhão do Careca do INSS, que atribuiu a serviços de consultoria para a regulação do mercado de cannabis medicinal no Brasil.
Segundo inquérito, aberto em 31 de julho (um dia depois do primeiro), também sob relatoria de Mendonça, investiga suspeitas de que Lulinha teria atuado na Dataprev. A PF apura se o filho do presidente agiu para viabilizar negociações do Careca do INSS com a estatal responsável pela base de dados da previdência social. A investigação é um desdobramento do inquérito sobre fraudes no INSS, que prendeu Antunes. A PF chegou a citar Lulinha no caso, mas descartou seu envolvimento após aprofundar as investigações.
Por fim, terceiro inquérito foi autorizado em 4 de agosto. Dessa vez, a suspeita de tráfico de influência de Lulinha no governo seria em favor de empresas parceiras dele. Diferentemente dos demais, o caso está sob relatoria do ministro Flávio Dino.
Negócios com o Ministério da Saúde não foram concretizados. Segundo a Folha de S.Paulo, as conversas envolviam a venda de R$ 627 milhões em medicamentos à base de cannabis e a entrega de testes de diagnóstico para dengue e outras arboviroses, além de parcerias produtivas por meio da Iquego (Indústria Química do Estado de Goiás S.A.).
Ao contrário do que alegam aliados de Lula, o fato de o contrato não ter sido assinado não afasta o crime de tráfico de influência. “O artigo 332 do Código Penal pune quem solicita, exige, cobra ou obtém vantagem ou promessa de vantagem a pretexto de influenciar um agente público”, explicou a advogada criminalista e sócia do escritório João Victor Abreu Advogados Associados, Ana Krasovic.
Contudo, é importante diferenciar lobby de tráfico de influência. Segundo Beatriz Alaia Colin, advogada do escritório Wilton Gomes Advogados e especialista em Direito Penal e Processo Penal, “o ponto central é a existência de uma contrapartida”. Ela ressaltou que a “simples intermediação, apresentação de proposta ou atividade de lobby, sem vantagem vinculada à influência sobre agente público, não basta para caracterizar o delito”.
Questionado, o presidente Lula disse que seu filho não será poupado. Petista classificou as acusações de tráfico de influência como “ilações” e disse que seu filho será investigado como qualquer cidadão. Em sabatina na TV Globo, o presidente afirmou que nunca viu Roberta, mas tem fotos com ela publicadas em redes sociais.
Defesa de Lulinha nega as acusações e fala em uso eleitoral. Em 31 de julho, o advogado de Lulinha, Marco Aurélio de Carvalho, disse ao UOL News, do Canal UOL, que a PF faz “busca probatória” contra seu cliente. E para isso, na avaliação do advogado, remete a práticas da época da Lava Jato.
Dark Horse foi financiado por Vorcaro e emendas
Financiamento do filme “Dark Horse” por Vorcaro levantou uma série de suspeitas sobre Flávio. O caso foi tornado público em 13 de maio, quando o Intercept Brasil revelou um áudio em que o senador pede dinheiro ao então dono do Banco Master para bancar a obra. Pedido foi feito quando suspeitas de irregularidades do Master já eram públicas e sua venda para o BRB havia sido recusada pelo Banco Central.
Vorcaro teria combinado dar R$ 134 milhões para o filme, dos quais ao menos R$ 61 milhões foram pagos. Remessas mensais foram feitas para o Havengate Development Fund, fundo americano que administrava o dinheiro de Dark Horse. Um último repasse, de R$ 8,5 milhões, em setembro de 2026, foi revelado hoje pela revista piauí, e um novo pagamento estaria em negociação.
A princípio, senador negou ter recebido dinheiro do banqueiro. Depois da divulgação do áudio, porém, ele admitiu ter um contrato com Vorcaro para financiar o filme, alegando se tratar de uma captação privada, sem dinheiro público. Mendonça autorizou a PF a investigar o caso em julho deste ano.
“Financiamento privado de um filme, isoladamente, não é crime”, disse Colin. “A questão muda se houver prova de que o aporte foi solicitado ou recebido em razão da função pública do senador e em troca de alguma atuação, influência ou favorecimento. Nesse caso, pode haver repercussão penal independentemente de o dinheiro ter origem privada”, completou.
Investigação paralela, sob relatoria de Dino, apura uso de verba de emendas parlamentares na produção. Um dos emissários de dinheiro foi o deputado federal Mario Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura de Jair Bolsonaro. A emenda de R$ 1 milhão seria destinada ao ICB (Instituto Conhecer Brasil) para um projeto de empreendedorismo em Pirassununga, no interior paulista, que nunca saiu do papel.
Outro contrato da Prefeitura de São Paulo com a mesma ONG para a oferta de wi-fi também é investigado. A suspeita é que parte dos R$ 108 milhões pagos para o fornecimento do serviço tenha sido desviado para o Dark Horse. Tanto o ICB quanto a produtora do filme, a Go UP Entertaiment, pertencem à mesma pessoa, a empresária Karina Ferreira da Gama.
Produtora declara gastos de cerca de R$ 75 milhões na obra, mas o relatório é questionado por falta informações. Ainda há suspeitas de que parte do dinheiro tenha sido usado para pagar despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos.
“O problema surge se houver triangulação para ocultar o verdadeiro destino do dinheiro. Se uma emenda é formalmente destinada a uma entidade ou finalidade, mas os recursos acabam desviados para financiar outro projeto, pode haver repercussão administrativa, eleitoral e até criminal, dependendo das provas e da intenção dos envolvidos”.
Advogada criminalista Ana Krasovic
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/09/02/lulinha-dark-horse.ghtm





