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Escritórios de advocacia apostam na cultura como ferramenta de transformação social
Ernesto Tzirulnik Advocacia e Pinheiro Neto apoiam evento gratuito de literatura e dão exemplos de como a classe jurídica pode ir além do direito e contribuir com o tecido cultural e social do país
João Andrade
Foto: Filipe Redondo/Divulgação
Num país onde o financiamento público à cultura enfrenta cortes sistemáticos e onde o acesso a bens culturais ainda é profundamente desigual, alguns escritórios de advocacia têm encontrado na arte e na literatura um caminho para exercer responsabilidade social para além das salas de audiência. O movimento, que ganha força no ambiente jurídico brasileiro, tem no ETAD — Ernesto Tzirulnik Advocacia e no Pinheiro Neto Advogados dois de seus protagonistas mais visíveis.
Ambos os escritórios apoiam “A Feira do Livro”, evento cultural gratuito realizado em São Paulo e organizado em parceria com a Associação Quatro Cinco Um e a Maré Produções. A iniciativa reúne autores, leitores e diferentes perspectivas intelectuais em um ambiente aberto ao público — e é justamente essa característica que atrai os patrocinadores jurídicos.
O DNA cultural da ETAD
No caso da ETAD, o envolvimento com a cultura não é uma estratégia recente de marketing institucional — é parte constitutiva da identidade do escritório. O Projeto Ceará 202, iniciativa cultural sem fins lucrativos mantida pela banca, estimula trabalhos nas áreas de arquitetura, cinema, fotografia e artes plásticas, além de promover a música brasileira por meio da gravação de CDs e da realização de shows abertos ao público. O nome do projeto é uma referência ao endereço da sede do escritório: a Rua Ceará, 202, no bairro do Pacaembu, em São Paulo.
O imóvel não é apenas um espaço de trabalho. Trata-se da residência restaurada do arquiteto Jayme C. Fonseca Rodrigues, um dos principais monumentos arquitetônicos da cidade. O projeto recuperou o edifício e transformou-o na sede da banca, que hoje abriga tanto os advogados do escritório quanto as apresentações artísticas do Ceará 202. O portfólio musical do projeto já inclui dezenas de CDs originais de músicos como Ulisses Rocha, Toninho Ferragutti, Nelson Ayres, José Domingos, Bruno Monteiro e Neymar Dias. Um dos lançamentos, o álbum Festa na Roça, de Ferragutti e Neymar Dias, foi finalista do Grammy Latino de 2014 na categoria “Música de raiz” — reconhecimento internacional que dimensiona a relevância do projeto.
“O fomento a atividades culturais é algo que se liga à própria identidade do escritório”, afirma Inaê Oliveira, sócia da ETAD. Segundo ela, a visão partiu do sócio fundador Ernesto Tzirulnik, que sempre valorizou as artes e o papel transformador da cultura. “O objetivo é que o escritório seja um fomentador de atividades culturais, de modo que artistas tenham oportunidades em uma sociedade tão carente de políticas de financiamento da cultura e que mais pessoas tenham acesso ao que nossos artistas produzem.”
A parceria com a Feira do Livro ocorreu de forma natural. O arquiteto Álvaro Razuk, um dos organizadores do evento e responsável pelas exposições do fotógrafo Sebastião Salgado no Brasil, já mantinha relação com o escritório. A assessoria jurídica ao evento é prestada em regime pro bono, cobrindo desde a estruturação contratual até questões operacionais. “Não há contrapartidas econômicas ou benefícios tributários”, ressalta Oliveira.
Em outubro de 2025, o escritório foi ainda mais longe: promoveu um show gratuito e aberto ao público do músico Paulinho da Viola no Theatro Municipal de São Paulo, em comemoração aos 40 anos da banca.
“Um requisito sempre ponderado é o impacto da atividade proposta, que deve ser acessível ao público”, diz a sócia.
Pinheiro Neto: cultura integrada à estratégia ESG
No Pinheiro Neto Advogados, o apoio à Feira do Livro emergiu de dentro da própria estrutura de governança do escritório. Em 2024, durante o mês da Consciência Negra, a Comissão de Diversidade, Equidade e Inclusão da banca identificou o trabalho da Associação Quatro Cinco Um em torno da Literatura Negra e sugeriu a parceria. A proposta foi incorporada à estratégia de investimento social do escritório para 2025 e viabilizada pela Comissão de Responsabilidade Socioambiental, em conjunto com o Programa de Embaixadores Voluntários.
Para o escritório, o engajamento vai além do patrocínio financeiro. Voluntários da banca promoveram uma imersão literária na Feira do Livro de 2025 para acolhidos da Casa Neon Cunha e para jovens bolsistas do Instituto Apoia, com direito a vale-livro e alimentação. A iniciativa conecta diretamente a ação cultural com os pilares de educação, diversidade e inclusão que norteiam a política de responsabilidade social da firma.
Angélica Brito, assistente de Responsabilidade Social do Pinheiro Neto, aponta ainda uma dimensão estratégica frequentemente ignorada: o impacto sobre a formação dos próprios advogados. “Por sua própria formação, advogados tendem a concentrar-se nas especificidades técnicas dos casos que conduzem, arriscando perder a visão do contexto social mais amplo”, avalia. O envolvimento com iniciativas culturais, segundo ela, amplia esse repertório — algo que considera indispensável ao exercício da profissão.
“As parcerias culturais estimulam o olhar para além dessas bolhas, algo essencial a uma profissão que, por definição, exige uma visão de mundo”, conclui.
O escritório também disponibiliza atendimento jurídico pro bono aos seus parceiros sociais, contribuindo para o desenvolvimento institucional dessas organizações e ampliando sua capacidade de impacto. A iniciativa integra ainda os advogados da banca em projetos com propósito claro, fortalecendo o senso de pertencimento e a conexão com as diversas realidades que compõem o tecido social brasileiro.
Uma tendência em consolidação
Os dois escritórios reconhecem que não estão sozinhos. “Cada vez mais temos visto escritórios desenvolverem políticas de apoio à cultura”, diz Inaê Oliveira, da ETAD. Para ela, é preciso dar um passo além: “É preciso institucionalizar essas práticas e fazer com que elas ganhem escala dentro dos escritórios.” No Pinheiro Neto, Angélica Brito reconhece que ainda há barreiras a superar. A principal delas, aponta, é a dificuldade de alocação de tempo e recursos em agendas já sobrecarregadas, aliada a uma percepção ainda restrita sobre o papel institucional da advocacia.
Para o Pinheiro Neto, o apoio à cultura só se justifica quando integrado a projetos sociais e educacionais estruturados. “O apoio à cultura, quando descentralizado e abordado de forma integrada, fortalece o pilar social do ESG e promove mudanças estruturais ao garantir representatividade em toda a cadeia, da produção ao acesso”, argumenta Brito. A literatura, em particular, ganha destaque nesse raciocínio: ao reunir autores, leitores e diferentes perspectivas, “A Feira do Livro” contribui para elevar o nível do debate público em ambiente plural e acessível — elementos que, segundo ela, são indispensáveis para uma sociedade mais crítica e institucionalmente madura.
O que os dois casos têm em comum é a convicção de que a advocacia brasileira tem um papel a cumprir que transcende o contencioso e o aconselhamento jurídico. Ao apoiar a circulação de ideias, a produção artística e o acesso democrático à cultura, escritórios como a ETAD e o Pinheiro Neto oferecem um modelo de atuação em que o direito e a arte se encontram — e, juntos, podem contribuir para mudar a realidade do país.





