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Ainda vivemos no entreguerras

28 de março, 2026

Ainda vivemos no entreguerras

Talvez não seja exagero apontar que o mesmo quadro de tensões que se colocou no período entreguerras permanece, em essência, até hoje

Por Paulo Piza

O título pode parecer um chiste e certamente contraria toda a tradição acadêmica. Talvez não seja exagero, porém, apontar que o mesmo quadro de tensões que se colocou no período entreguerras permanece, em essência, até hoje.

A estranheza talvez diminua quando se considera que a história se move em diferentes ritmos. Para Fernand Braudel, há o tempo curto dos acontecimentos cotidianos, a média duração dos ciclos econômicos e institucionais e o tempo longo das estruturas que moldam as sociedades ao longo de décadas ou séculos. Vista de perto, a ideia expressa no título deste artigo pode soar exagerada; passados mais de cem anos, contudo, as continuidades começam a se tornar visíveis. Os conflitos centrais do entreguerras persistem, sob novas formas, organizando o presente.

No campo artístico, as tensões inauguradas pelas vanguardas do início do século 20, reelaboradas no entreguerras, continuam a orientar o debate. A crise do figurativismo não foi simples experimento formal, mas a percepção de que as formas herdadas já não davam conta de um mundo em transformação. A decomposição da figura em Pablo Picasso, a fragmentação do espaço e a busca de novas linguagens expressavam menos um estilo do que uma exigência histórica. A imagem artística passou a compreender a visão no sentido pleno, o objeto em sua espessura física e emocional, em sua atmosfera social. Pintores como Francis Bacon e Lucian Freud mostram, bem assim, como a figura humana pode ser apresentada não apenas como corpo, mas como inquietação, vulnerabilidade, intensidade. O fundo da tela, as cores, a matéria pictórica, tudo participa da significação. A interioridade do artista deixou de ser entendida como mero individualismo psicológico e passou a ser vivida como experiência atravessada por tensões coletivas.

É a partir dessa mesma inquietação que se passa do campo da arte para o terreno da política e da economia. O entreguerras foi marcado pela convivência paradoxal entre instituições democráticas formais e o esvaziamento progressivo de seus conteúdos, uma experiência que teve na República de Weimar sua expressão mais emblemática. Nacionalismos agressivos, personalização do poder, mobilização constante do conflito social e ataques às instituições não aboliram imediatamente a democracia – foram, pouco a pouco, deformando-a por dentro. Nas democracias contemporâneas, preservam-se as formas institucionais enquanto se tensionam seus limites. Multiplicam-se ataques à imprensa, ao Judiciário e aos mecanismos de controle. A democracia continua funcionando sob desgaste permanente, com a serpente à espreita. Uma esquizofrenia que mantém o ritual democrático enquanto corrói seus fundamentos.

Na economia, essa ambiguidade também se faz presente. O entreguerras assistiu ao colapso do laissez-faire, ao endividamento público expressivo e ao retorno decisivo do Estado como organizador da economia. Hoje, em nome do livre mercado, proliferam tarifas, subsídios, políticas industriais estratégicas, resgates financeiros e nacionalismos produtivos. A reorganização das cadeias globais e a centralidade estatal em setores-chave mostram que o mercado segue profundamente dependente da ação pública.

No plano internacional, as disputas por colônias, mercados e recursos naturais deram lugar a conflitos por matérias-primas, energia, tecnologia e mercados consumidores. Do fracasso da Liga das Nações à paralisia da Organização Mundial do Comércio (OMC) persiste a lógica da competição por influência, o enfraquecimento do multilateralismo, o mundo em rota de tensão estrutural. A questão do Estado retorna assim com força: regular, proteger setores estratégicos e articular-se internacionalmente revela-se, mais do que nunca, condição de soberania real.

A expansão dos poderes privados avança sobre o Estado e a própria vida social. Grandes conglomerados financeiros e tecnológicos influenciam governos e moldam o cotidiano, a circulação de informações, os padrões de consumo, os modos de trabalho e até a percepção da realidade. A questão das identidades se inscreve nesse mesmo tempo longo: necessária e reparadora, mas problemática quando se torna ideologia. A pintura Operários, de Tarsila do Amaral já sintetizava diversidade e experiência comum, a diferença sem perda da realidade coletiva – uma perspectiva que novamente se perde.

Perdoem o advogado, habituado à retórica própria do Direito. Meu irmão querido, o jornalista Daniel Piza, nos deixou há quase 15 anos e neste 28 de março faria 56 anos. Talvez não concordasse com tantas ilações mal amarradas, mas era assim que conversávamos, desde cedo, dividindo o mesmo quarto, caminhando juntos para o colégio e a faculdade de Direito. Mais do que homenageá-lo, peço licença para homenagear os jornalistas culturais em geral, por não nos deixarem, como ele fazia com texto e critério, à margem de uma dimensão que, com o passar do tempo, mostra sempre que, no jornalismo, são eles quem mais têm a dizer.

Opinião por Paulo Piza
Advogado

https://www.estadao.com.br/opiniao/espaco-aberto/ainda-vivemos-no-entreguerras/

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