PORTFÓLIO

Por que o remédio que você compra pode não ser o que você precisaria
Estudo exclusivo com executivos do setor farmacêutico aponta falhas na integração entre indústria, distribuição e varejo que afetam estoques e disponibilidade de medicamentos
Letícia Furlan
Repórter de Mercados
(Imagem: Freepik)
O setor farmacêutico brasileiro convive com uma distorção estrutural que atravessa toda a cadeia de valor, da indústria ao balcão da farmácia. A falta de coordenação entre os diferentes elos do mercado pode fazer com que o medicamento disponível ao consumidor nem sempre seja aquele mais adequado à demanda.
É o que aponta o estudo “Perspectivas sobre inovação do setor farmacêutico”, elaborado por Adriano Prado, ex-vice-presidente de distribuição na Profarma e executivo no Vale do Silício, em parceria com a consultoria EloGroup. Divulgada com exclusividade pela EXAME, a pesquisa ouviu 23 executivos C-level do setor entre setembro e novembro de 2025, incluindo representantes da indústria, distribuição, varejo e entidades do mercado.
A conclusão central é que o setor opera com uma assimetria estrutural de incentivos que dificulta a integração entre os diferentes participantes da cadeia.
Na prática, cada elo funciona com prioridades e margens muito distintas, o que acaba criando gargalos operacionais, desalinhamento de portfólio e perda de eficiência.
Três problemas estruturais
O diagnóstico aponta três pontos principais de desarticulação no mercado farmacêutico: a desintegração do portfólio de produtos, a fragmentação do supply chain e o subaproveitamento da relação com médicos e pacientes.
Mesmo com a disponibilidade de tecnologia e ferramentas digitais, dados, processos e estratégias ainda funcionam de forma pouco integrada entre os agentes do setor.
O resultado é uma cadeia menos eficiente, com impacto direto na disponibilidade de medicamentos e na gestão de estoques.
Segundo o levantamento, a própria estrutura econômica do setor ajuda a explicar essa dinâmica.
A indústria farmacêutica — especialmente as multinacionais — opera com margens mais robustas e sob forte regulação, o que reduz o incentivo à inovação fora do desenvolvimento de novas moléculas e produtos.
O foco, nesse caso, tende a ser eficiência operacional e otimização de processos já existentes.
Já a distribuição e o varejo vivem realidade diferente. As margens são significativamente menores, entre 2% e 3% na distribuição e entre 5% e 8% nas farmácias.
Nesse ambiente competitivo, automação e corte de custos deixam de ser estratégia e passam a ser condição de sobrevivência.
Esse desalinhamento aparece com força na logística do setor.
Sem dados integrados, visibilidade de estoque em tempo real e previsões de demanda compartilhadas, o sistema tende a gerar excesso de medicamentos em algumas regiões e falta em outras.
“A falta de dados integrados, visibilidade de estoque em tempo real e previsões colaborativas de demanda resulta no excesso de estoque em algumas regiões, ruptura em outras e aumento do capital de giro imobilizado”, afirma Prado.
Em alguns casos, o portfólio de produtos disponível nas farmácias passa a ser definido mais pela disponibilidade de crédito das lojas do que pela demanda real dos consumidores.
O efeito colateral é uma queda na eficiência comercial das farmácias e um processo gradual de concentração do mercado.





