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FGC devolve o dinheiro, mas não o rendimento: que lição fica do caso Master?
Por Gustavo Boldrini, da Broadcast
A liquidação extrajudicial do Master foi decretada em 18 de novembro de 2025, e o início dos reembolsos de investimentos por meio do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) começou apenas dois meses depois, em 19 de janeiro. Com isso, muita gente que tinha aportes em produtos do banco acabou “perdendo” dinheiro.
Como assim? Neste período, apenas a título de comparação, o rendimento do Certificado de Depósito Interbancário (CDI) foi de cerca de 2,30%. Já o ganho acumulado pelo Ibovespa foi de 5,30%. Ou seja: quem tinha alguma grana investida em CDBs ou outros produtos de captação bancária do Master perdeu essa rentabilidade.
Aprender com a experiência
Mas, o que fazer diante dessa percepção de perda de dinheiro? Aprender com o acontecido é o primeiro passo.
“O investidor tem que aproveitar desta experiência e entender que todo produto financeiro possui um risco. Nesse caso, há o fator de ficar um tempo com o dinheiro parado até o ressarcimento pelo FGC“, explica Cíntia Senna, mestre em educação financeira pela Florida Christian University (FCU) e professora na Universidade do Oeste Paulista (Unoeste).
O caso pode ajudar investidores a terem um senso crítico mais aguçado na hora de selecionar seus produtos e lidar com as recomendações de analistas e corretores. Afinal, o sinal de alerta foi dado.
“O investidor deve passar a agir com muito mais cautela, menos ingenuidade e com maior questionamento e desconfiança. Isso vale não apenas sobre os produtos cobertos e os não cobertos pelo FGC, mas também quanto à ‘liquidez diária’ prometida e rentabilidade de produtos oferecidas em parâmetros muito superiores e diversos dos praticados no mercado para produtos equiparados”, alerta Ricardo da Rocha Neto, sócio fundador do escritório Abe Advogados.
Até o fim da tarde da última sexta-feira, 23, o FGC já havia reembolsado R$ 26 bilhões a 521 mil clientes do Master. O montante de dinheiro equivale a 66,4% do total previsto para reembolso, e o volume de clientes que já receberam a grana representa 67,3% do total.
Cuidado com o FGC
A cobertura do FGC tem sido utilizada como ferramenta de marketing por muitas instituições, o que acaba dando a entender que o produto que conta com esse seguro é livre de riscos. Mas não é bem assim, como explica a educadora financeira Cíntia Senna.
“O FGC é uma forma para trazer um pouco mais de estabilidade para o sistema financeiro e fortalecer a confiança nas pessoas, mas é importante não usá-lo como um salvador. As pessoas precisam olhar para o FGC como uma camada a mais de segurança, mas não a única questão que eu vou precisar olhar antes de investir”, aponta.
Segundo Senna, é crucial pesquisar sobre a instituição financeira que emite o título, sua lucratividade, seu rating de crédito e seus índices de liquidez. E isso pode ser feito por meio da internet ou de conversas com especialistas de confiança.
FGC e burocracias
Muitos investidores podem estar se questionando sobre a demora no pagamento do FGC após a liquidação do Master. Mas, devido ao alto volume de dinheiro que teve de sair do fundo, pode-se entender que o processo ocorreu com normalidade, segundo o advogado Ricardo da Rocha Neto.
“O FGC tem por atribuição e dever legal, para que o sistema de reembolso seja efetivo, de fazer uma análise acurada das informações, principalmente quanto à consolidação e validação da base de credores e volume de créditos envolvido”, afirma.
O especialista acrescenta que o investidor, ao se deparar com exigências burocráticas, pode ter a percepção de que algo está errado, mas, quando isso acontece, “o sistema está funcionando da forma como desenhado para evitar qualquer erro de processamento”.
Ou seja: a demora faz parte do processo, que inclui a correta verificação de titularidade (CPF ou CNPJ) dos investidores e credores para afastar divergências e pagamentos indevidos, o que poderia travar o fluxo.
Como pedir o reembolso do investimento via FGC?
Investidores ou clientes do banco Master podem pedir ressarcimento de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ ao FGC. O passo a passo para solicitar os valores é relativamente simples:
- 1 – Baixar o app oficial do FGC (no caso de pessoas jurídicas, o pedido deve ser feito pelo site do FGC);
- 2 – Fazer o cadastro e validar sua identidade digital;
- 3 – Informar uma conta bancária ativa em outro banco (com mesmo CPF ou CNPJ de titularidade) para receber a transferência;
- 4 – Buscar a opção “Solicitar Pagamento” no app, preencher os dados e assinar digitalmente o pedido;
- 5 – Acompanhar o status da solicitação até que o pagamento caia na conta.
O prazo para a solicitação do reembolso de valores investidos no banco Master vai até 18 de novembro de 2030, cinco anos após a decretação da liquidação extrajudicial pelo Banco Central (BC).





