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Da confusão à estratégia: como TI e SI podem transformar o uso de IA por funcionários e empresas
Por Antonielle Freitas
A cena já é comum: alguém abre um chatbot de IA no celular, pede ajuda para escrever um e-mail, revisar um texto ou montar um relatório, sempre olhando para os lados, como se estivesse fazendo algo proibido. No fim, o trabalho melhora, o tempo rende… e surge a dúvida: “Será que eu podia usar IA pra isso?”
Pesquisas internacionais mostram que essa sensação não é isolada: muita gente já usa IA no trabalho, mas esconde. Em alguns levantamentos, mais da metade dos profissionais admite não contar que recorre a essas ferramentas. Ou seja: a IA já entrou nas empresas, mas as regras ainda não.
Isso cria um paradoxo perigoso: oficialmente ninguém fala do assunto; na prática, todo mundo está testando. E aí surge a pergunta incômoda: Quem corre mais risco, o funcionário que usa, ou a organização que finge que não vê?
A cultura do “pode, mas não conta”
Hoje, as empresas costumam se posicionar de três formas:
- Incentivam sem orientar: falam em inovação, celebram produtividade, mas não deixam claro o que é aceitável.
- Alertam sem oferecer alternativa: mandam mensagens de “cuidado com a IA”, “não cole dados sensíveis”, e param aí.
- Ignoram o tema: não proíbem, não permitem, não explicam.
Em qualquer uma dessas situações, o resultado é parecido: a ausência de regra não impede o uso, só tira a visibilidade. A IA passa a operar no “modo sombra”, sem controle, sem governança e, muitas vezes, sem noção dos riscos envolvidos.
Risco velho, velocidade nova
A IA não inventou riscos totalmente novos; ela acelerou e ampliou riscos que as empresas já conhecem: vazamento de informações, erros técnicos ou jurídicos, viés em decisões, dano à reputação, problemas com LGPD e políticas internas.
Quando um colaborador joga um contrato sigiloso em um chatbot público, expõe dados estratégicos sem perceber. Quando um RH usa IA para filtrar currículos, pode reforçar preconceitos em vez de mitigá-los. Quando um gestor ou advogado confia em um parecer gerado por IA sem conferir fontes, abre espaço para erros graves.
No fundo, o problema não é usar IA. O problema é usar sem regra, sem consciência e sem apoio institucional.
Por que TI e SI não podem ficar na arquibancada
Muita gente encara a pergunta “pode ou não pode usar IA?” como um tema de RH ou jurídico. Mas quem define ferramentas, dados, acessos e integrações é, em grande parte, o time de TI e Segurança da Informação. São nessas áreas que surgem respostas sobre:
- Quais ferramentas de IA são aceitáveis do ponto de vista de segurança e compliance?
- Que dados podem ou não podem entrar em prompts?
- Como registrar e auditar o uso de IA quando necessário?
- Como integrar IA a sistemas internos sem abrir novas vulnerabilidades?
Se TI e SI não puxarem essa discussão, o espaço será ocupado por soluções gratuitas, contas pessoais e aplicativos sem qualquer controle, a chamada “shadow AI”, o uso paralelo e invisível de IA dentro da empresa.
Ao mesmo tempo, esse cenário abre uma oportunidade rara: TI e SI podem deixar de ser apenas o “não pode” e assumir o papel de quem viabiliza o “pode, assim e com segurança”.
De “pode ou não pode?” para “como queremos usar?”
Mais do que decidir se a IA é liberada ou proibida, a pergunta central deveria ser:
“Como queremos que a IA seja usada aqui dentro?”
Isso passa por alguns movimentos básicos:
- Definir limites claros: em linguagem simples, explicar o que é permitido (ex.: rascunho de textos, apoio a análises, geração de código com revisão) e o que é proibido (ex.: dados pessoais ou sigilosos em ferramentas públicas, publicações sem revisão humana).
- Escolher ferramentas oficiais: adotar soluções de IA corporativas, integradas ao ambiente de TI, com autenticação, logs e alinhamento à LGPD, em vez de deixar cada um usar o que quiser.
- Orientar o uso no dia a dia: apoiar as áreas em guias práticos de “como usar bem”.
- Formar pessoas, não só configurar sistemas: explicar, em treinamentos simples, que IA erra, inventa, pode reforçar vieses e não substitui a responsabilidade humana.
Quando essas peças se encaixam, a IA deixa de ser segredo de corredor e passa a fazer parte da estratégia digital da empresa, com TI e Segurança da Informação no centro da conversa.
De tabu a vantagem competitiva
No fim, o maior risco hoje não é a IA, mas o silêncio em torno dela.
Enquanto o tema continuar nebuloso, funcionários seguirão inseguros e empresas, vulneráveis.
Ao trazer a discussão para a luz, definir regras claras e oferecer caminhos seguros, as organizações transformam a IA de ameaça difusa em aliada concreta: uma ferramenta poderosa para trabalhar melhor, com mais qualidade, produtividade e segurança. E, com TI e SI atuando como protagonistas dessa virada.
Antonielle Freitas
Advogada pós-graduada em Direito Processual Civil, Digital, Compliance e Proteção de Dados, com 22 anos de experiência em compliance, contratual, cível, trabalhista e tributária. Especialista em proteção de dados e DPO certificada pelo EXIN, com ampla experiência em empresas nacionais e multinacionais. Líder em implementação de áreas jurídicas e compliance, gestão de equipes e resolução de conflitos.
https://itshow.com.br/como-ti-e-si-podem-transformar-o-uso-de-ia/





