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Falta de profissionais qualificados trava mercado de recuperação judicial no Brasil

24 de julho, 2025
Foto: Freepik

A crescente busca de empresas brasileiras por soluções de reestruturação esbarra em um gargalo estrutural: a escassez de profissionais qualificados para atuar em processos de recuperação judicial. Com mais de 360 pedidos protocolados apenas no primeiro trimestre de 2025 — alta de 26% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo a Serasa Experian — o setor enfrenta um descompasso entre demanda e preparo técnico.

Apesar de a Lei de Recuperação Judicial e Falências (Lei nº 11.101/2005) completar 20 anos agora em 2025, a formação de especialistas capazes de conduzir negociações complexas com credores, estruturar planos viáveis e dialogar com o Judiciário ainda é insuficiente. Estimativas da TMA Brasil (Turnaround Management Association) indicam que menos de 10% dos advogados atuam de forma consistente com reestruturações empresariais, o que compromete o andamento de muitos processos.

Judicialização cresce, mas falta preparo

A elevação nos pedidos de recuperação judicial reflete, em parte, os efeitos da alta dos juros entre 2023 e 2024, o encarecimento do crédito e o aumento da inadimplência. No entanto, o problema não está apenas no número de casos, mas na condução dos processos. A falta de formação prática tem contribuído para a judicialização de empresas sem que elas estejam minimamente preparadas para sustentar o plano de reestruturação — o que eleva o índice de falências decretadas.

Entre os principais obstáculos estão a ausência de profissionais com visão multidisciplinar — que alie conhecimento jurídico, contábil, financeiro e estratégico — e a deficiência na articulação entre os diversos atores envolvidos, como advogados, administradores judiciais, contadores e consultores. Além disso, erros processuais, estratégias mal planejadas e comunicação ineficaz com credores agravam a situação das empresas em crise.

Um dos principais entraves ao sucesso das recuperações judiciais no Brasil está na fragilidade técnica de muitos planos apresentados. “Erros como projeções financeiras inconsistentes, ausência de estratégias efetivas de reestruturação ou mesmo o simples parcelamento de dívidas sem conexão com a real capacidade de geração de caixa da empresa revelam a falta de preparo prático dos profissionais envolvidos”, avalia Rafael Santana Coelhosócio do escritório Paschoini Advogados e especialista em recuperação judicial.

Mentorias tentam preencher o vácuo

Diante da carência de cursos e programas especializados, surgem iniciativas voltadas à capacitação prática de profissionais interessados em atuar no setor. Programas de mentoria têm ganhado força ao oferecer experiências imersivas baseadas em simulações, estudos de caso e dinâmicas de negociação.

“Falta gente preparada para assumir a frente técnica dessas negociações com foco na viabilidade do negócio”, afirma o advogado e especialista em reestruturação empresarial Marcos Pelozato. Para ele, o modelo das mentorias oferece um aprendizado mais próximo da realidade. Mas muitas empresas acabam encerrando as atividades não pela inviabilidade econômica, mas pela falta de uma estratégia de recuperação bem executada.

Mais do que conhecimento teórico, é a formação prática — voltada para a construção de soluções personalizadas, juridicamente sustentáveis e economicamente exequíveis — que pode transformar a forma como os planos são estruturados e apresentados, na visão de Rafael Santana Coelho. “Quando os credores percebem que estão diante de uma proposta bem fundamentada, construída por profissionais experientes e conectados à realidade da empresa e do setor, a confiança se restabelece”, afirma.

Apesar de iniciativas como essa ainda estarem restritas a um público específico, há expectativa de que se tornem mais comuns nos próximos anos, principalmente diante da necessidade crescente de profissionais especializados em renegociação de dívidas e gestão de crise. A profissionalização do setor é vista por analistas como um passo indispensável para tornar a recuperação judicial uma ferramenta eficaz de preservação de empresas, empregos e arrecadação pública.

Descompasso compromete o ecossistema

A falta de mão de obra qualificada também impacta negativamente o ecossistema mais amplo da recuperação judicial. Escritórios de advocacia, administradoras judiciais, contadores, consultores financeiros e instituições financeiras dependem de processos bem estruturados para operar com segurança jurídica e previsibilidade.

A carência de especialistas afeta a qualidade dos planos apresentados, o tempo de tramitação das ações e até a confiança dos credores na efetividade da recuperação. Na prática, isso significa processos mais longos, onerosos e com baixas taxas de sucesso.

Capacitar é fortalecer a economia

A expectativa é que a formação prática de novos especialistas se consolide como prioridade nos próximos anos, tanto no setor privado quanto em programas de extensão universitária e cursos de pós-graduação. Para operadores do mercado, a capacitação técnica não é apenas uma resposta à demanda, mas um elemento essencial para o funcionamento saudável da economia.

“A recuperação judicial, quando bem conduzida, é capaz de preservar empresas, cadeias produtivas, empregos e arrecadação tributária. Trata-se de uma pauta que ultrapassa o interesse privado e entra na agenda pública”, resume Pelozato.

“Profissionais capacitados não apenas evitam erros técnicos, como também cumprem um papel essencial na reconstrução da empresa em crise e na preservação dos seus valores sociais e econômicos”, afirma Rafael Santana Coelho.

Enquanto o número de processos cresce e o risco de falência generalizada ronda empresas de médio porte em setores como varejo, agroindústria e transporte, o país ainda tenta consolidar um mercado de reestruturação profissionalizado e eficiente. E, para isso, precisa olhar além do litígio e investir em formação.

https://lexlegal.com.br/falta-de-profissionais-qualificados-trava-mercado-de-recuperacao-judicial-no-brasil/

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