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Geração Z em ‘modo avião’? Entenda sintomas dessa nova tendência em ambientes corporativos
Chamado de Gen Z Stare, o comportamento tem chamado a atenção de colegas de trabalho e clientes, e caracteriza um olhar neutro e sem expressão. Especialistas explicam o que está por trás disso
Por Debora A. Leite
Nas últimas semanas, vídeos e memes sobre o chamado “Gen Z Stare” — ou, em tradução livre, olhar parado da Geração Z — têm viralizado nas redes sociais, especialmente no TikTok e no X (antigo Twitter). A expressão descreve um comportamento cada vez mais comum entre jovens de 15 a 30 anos: um olhar vazio, fixo e sem reação durante interações sociais cotidianas. Especialistas brasileiros têm estudado essa reação, que tem ganhado nomes locais como “modo avião” ou “olhar fixo”.
O fenômeno ganhou força após gerações mais velhas começarem a relatar situações em que se sentiram confusos ao receber esse tipo de olhar de colegas de trabalho mais jovens, descrevendo-o como frio ou impassível. Já a Geração Z, em resposta, passou a ironizar as críticas e a transformar o gesto em símbolo, ou meme, de exaustão emocional, desconexão social e ansiedade silenciosa.
“É o mesmo olhar de uma criança pequena que tem medo de estranhos e espera que a mãe fale por ela”, comentou um internauta, no vídeo publicado por Milo (@empty_sweather). Outro completou: “Não é desrespeito, é só ansiedade”.
De meme a sintoma geracional
A Geração Z — formada por pessoas nascidas entre 1995 e 2010, atualmente com idades entre 15 e 30 anos — cresceu em meio à hiperconexão e se comunica de forma diferente das gerações anteriores. Para o psicólogo clínico André Sena Machado, o “Gen Z Stare” não é uma simples moda: “A psicologia vê esse comportamento com múltiplas camadas. Pode ser introspecção, ansiedade social ou uma adaptação ao ambiente digital, onde expressões faciais tradicionais perderam força.”
Já o professor Artur Costa, da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica, vai além: “Esse olhar parado pode expressar cansaço, sobrecarga emocional ou até uma tentativa inconsciente de se proteger. É como se dissessem com os olhos: ‘Me deixa respirar’.”
Ansiedade disfarçada de desinteresse
Durante os anos críticos da pandemia, muitos jovens da Geração Z estavam passando pela adolescência ou entrando na vida adulta. “Isso comprometeu o desenvolvimento das habilidades sociais dessas pessoas”, explica Machado.
A ausência de expressividade não necessariamente indica desinteresse. Como aponta Evelyn Rodrigues, head de Recursos Humanos do Paschoini Advogados, “o chamado ‘modo avião’ ou ‘olhar fixo’ da Geração Z é uma manifestação real, ainda que sutil, das transformações na forma como essa geração se comunica, se engaja e se posiciona profissionalmente”. Rodrigues relata que já vivenciou, na prática, situações que ilustram esse comportamento em contextos como reuniões presenciais, feedbacks e interações rápidas no dia a dia corporativo.
Com menos prática em interações presenciais, parte desses jovens encontrou no olhar neutro uma espécie de modo avião emocional.
“Não é que não estejam sentindo nada, é que estão sentindo demais. A ausência de expressão pode ser uma pausa psíquica diante do excesso de estímulos”, diz Costa, da ABPC.
Quando o olhar vira problema no trabalho
No ambiente corporativo, o comportamento pode gerar ruído. Um chefe interpreta o silêncio visual como desinteresse. Um colega mais velho vê a falta de sorriso como descaso. “O choque geracional surge quando Millennials esperam engajamento emocional e a Geração Z entrega introspecção e autenticidade”, afirma Machado.
Os millennials — nascidos entre 1981 e 1995, com idades entre 31 e 44 anos — cresceram em uma era de transição entre o analógico e o digital. “Eles valorizam expressividade e envolvimento emocional nas relações. A ausência desses elementos pode gerar julgamentos equivocados”, completa o psicólogo.
Segundo Amanda Cunha, advogada da área de RH, parte desse comportamento é mal compreendido por lideranças que esperam sinais convencionais de atenção ou envolvimento. “Já ouvimos relatos como ‘o colaborador parecia alheio’, quando, na prática, ele estava processando em silêncio”, afirma. Em um dos casos relatados por Rodrigues, um colaborador recebeu um feedback sem demonstrar reação e depois entregou um resumo impecável da conversa. “Ele estava presente, apenas se expressava de outro modo.”
Casos comuns incluem reuniões em que o jovem não demonstra entusiasmo visível, ou atendimentos ao cliente onde a neutralidade facial é interpretada como má vontade.
“A comunicação não verbal ainda é muito valorizada por gerações anteriores. Quando ela não acontece, surgem mal-entendidos.”
Além disso, a preferência por mensagens objetivas, o desconforto com telefonemas espontâneos e até a economia verbal são padrões recorrentes entre jovens, conforme mapeado por Rodrigues. “Eles valorizam eficiência, não acham necessário manter o small talk e preferem resolver tudo por texto, mesmo estando na mesma sala”, diz.
Inteligência artificial ou só juventude?
Um dos comentários que viralizou nas redes comparava o “Gen Z Stare” a uma IA mal calibrada, dizendo que o olhar parecia “um bug do ChatGPT ao receber uma pergunta confusa”. A comparação, embora irônica, reforça o estigma de que expressividade está ligada à empatia.
“É um ruído de interpretação”, explica Machado. “O que para uns soa como frieza, para outros é só o modo de estar no mundo. Nem todo jovem que olha em silêncio está desconectado.”
O que fazer, então?
Para os especialistas, é preciso acolher e entender o fenômeno, sem reduzi-lo a estereótipos. “Tratar o olhar fixo como um problema sem ouvir os jovens é reforçar a distância entre gerações”, diz Costa.
No ambiente profissional, o caminho é criar espaços seguros de escuta e investir em oficinas de inteligência emocional. “Workshops intergeracionais ajudam a promover empatia e a reduzir preconceitos”, aconselha Machado.
E, mais importante: reconhecer que o comportamento não define toda uma geração. O “Gen Z Stare” pode ser um traço cultural, um sintoma individual ou apenas um pedido silencioso por menos cobrança e mais compreensão.





